ANO: 23 | Nº: 5813

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
02/12/2017 Marcelo Teixeira (Opinião)

O mundo não é dos espertos

A frase “O mundo é dos espertos” é antiga, mas recentemente voltou à tona pela boca do gaúcho de Guaporé e tricampeão da Libertadores, Renato Portaluppi, no episódio ridículo do drone espião.
Quem conhece o Renato certamente não estranhou que ele tenha dito isso, pois isso é a cara dele. Apesar de gaúcho, sempre se portou como um malandro carioca com a autoestima de um argentino balaqueiro, ou seja, a personificação da arrogância mais marrenta que possa existir. Um anti-nerd. Alguém que jamais encheria a bola de algum “CDF” todo certinho e prudente, pois sempre se vangloriou de suas conquistas aparentemente despretensiosas querendo passar a mensagem de que sorte e talento são mais importantes que empenho e preparação.
Sedutor competente, nunca negou o rótulo de cafajeste irresistível que adorava vender a imagem de inconsequente protegido pelo acaso, ou seja, um legítimo “esperto”, com reações rápidas, impulsivas, dotado de um suposto sexto sentido que lhe daria uma vantagem fantástica sobre a média das demais pessoas. O problema é que os espertos costumam não contabilizar nem confessar as perdidas, só as ganhas, ou seja, são mais habilidosos no marketing pessoal do que na efetiva capacidade de atingir seus objetivos. E mais, na nossa cultura, esperteza está ligada a uma prática de levar vantagem causando prejuízo alheio individual ou coletivo, isto é, uma postura eticamente questionável.
Pois bem, se tem uma coisa que Portaluppi não foi nesta trajetória rumo à conquista da Libertadores, foi esperto. Pelo contrário, foi muito racional e inteligente! Sabia exatamente o que tinha nas mãos, explorou adequada e oportunamente o talento de cada um dos seus jogadores, construiu um conjunto taticamente harmonioso ainda que sem grandes talentos individuais. Recebeu apoio, liberdade e confiança de parte da diretoria, coisa fundamental para o sucesso de qualquer time de futebol.
Para completar, uma sorte incomum e provavelmente irrepetível no cruzamento com adversários sem nenhuma tradição e/ou expressão no universo latino-americano do esporte bretão, à exceção do Botafogo que, por sua vez, não vive a melhor de suas fases. Sempre disse que para conquistar um título é preciso, também, ter sorte. Foi assim com o bicampeonato do Inter em 2010, mais foi muito mais agora, no tri do G.F.B. Porto-alegrense.
Antes do título e depois da “polêmica” entrevista onde ressuscitou a famigerada frase, Renato mesmo voltou atrás e consertou a sua fala dizendo que “o mundo é dos inteligentes”, mostrando que ele não é mais o mesmo, que amadureceu. Quero acreditar que não fez isso apenas por respeito ao odiado “discurso politicamente correto”, mas também por reconhecer a inverdade da antiga frase. O sucesso momentâneo e ocasional dos espertos é ilusório e fugaz. Mais cedo ou mais tarde ele perece e demonstra que o sucesso lento, mas bem planejado dos prudentes responsáveis, é mais perene e satisfatório, ainda que menos encantador.
Enquanto isso, os espertos de Brasília e do Rio de Janeiro continuam sendo processados e encarcerados pela justiça tupiniquim para demonstrar que se um dia o mundo foi dos espertos, hoje já não é bem assim.

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