ANO: 23 | Nº: 5813

Dilce Helena dos Santos

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Psicóloga
05/12/2017 Dilce Helena dos Santos (Opinião)

Interatividade, carência ou arrogância?

O interessante do processo de amadurecimento é que vamos ganhando mais paciência para algumas coisas ao mesmo tempo em que vamos perdendo para outras. Outro dia tive uma atitude que sempre reprovei: abandonar uma palestra em pleno andamento. O mais incrível é que o assunto me agrada demais e aguardei por esta oportunidade um bom tempo. O motivo? Realmente percebi, naquele momento, que não precisava ter paciência e aguentar o que não suporto, não acredito ou condeno. E é este realmente o tema desta coluna hoje.
É inegável a necessidade e importância do ser humano em falar a respeito de si mesmo, suas reflexões, leituras, experiências e conhecimentos. Trocar essas ideias com outras pessoas produz crescimento, prazer e satisfação muito grandes e a tal ponto que algumas pessoas perdem o senso de oportunidade, fazendo isso todo tempo, em qualquer lugar, perdendo o sentido de troca e aprendizado. Fenômeno paradoxal da atualidade - ampliação da comunicação e diminuição do diálogo, seja por falta de tempo ou de prática. Por isso mesmo surge mais necessidade de expressão, porém sem retorno, sem a troca, são os discursos de nosso tempo – o textão das redes sociais, o áudio do WhatsApp, todos muito populares, afinal de contas não é necessário ouvir o retorno do interlocutor, ou seja, não é diálogo é monólogo.
Sobre a palestra, foi a segunda ocasião no mesmo mês em que tomei parte num grupo reunido em torno de alguém para ouvir, aprender e praticar, e ao invés disso, assisti surpreendida quem deveria estar no centro das atenções ser o tempo todo interrompido por pessoas da plateia que tinham algo a complementar ou contar a respeito de si. É claro que interação é bom e a troca com o público é essencial em qualquer atividade, mas isso não teria o momento certo, um limite? O de saber ouvir, escutar, tentar compreender o que aquela pessoa tem a dizer. Além do senso de ocasião que envolve perceber e respeitar o papel de cada um, incluindo quem foi para ouvir e aprender. Confesso que sinto vergonha ao ver a plateia demonstrar tanta autoestima, ou carência de atenção, a ponto de querer ensinar o mestre. Na segunda ocasião, cansei, ousei, levantei e saí.
Tenho imenso interesse e disponibilidade em ouvir as pessoas, suas opiniões e reflexões, mas gostaria muito de ir a uma palestra e ouvir o palestrante.

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