ANO: 24 | Nº: 6183

Fernando Risch

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Escritor
08/12/2017 Fernando Risch (Opinião)

Assisti um filme de autoajuda

Minha esposa disse que eu deveria ser mais positivo. Ela tem razão. Primeiro, por eu ser meio ranzinza ao natural. Segundo, porque eu optei por viver uma vida de pessimismo. Assim, achando que tudo vai dar errado, eu não me decepciono no fracasso. A única coisa que pode acontecer é eu me surpreender positivamente.

Mas então a gente começa a ficar pessimista com tudo e um ciclo de ânsias vai te deteriorando. Tristeza, raiva, ansiedade, tristeza, raiva, ansiedade. Ciclos e ciclos disso, porque só se vê decepção para onde olhamos – ou pré-decepção. Um amigo excêntrico sempre me diz pra não alimentar o negativo, porque negativo faz mal e não sei o que lá. Coincidentemente, esse amigo se ofendeu com alguma coisa que eu disse e brigou comigo. É um ciclo de negatividade. Uma coisa ruim traz outra.

Então fui obrigado a assistir um filme de autoajuda. Eu odeio autoajuda. Mas eu assisti e, num exercício complexo de contradição, comecei a assimilar a mensagem de autoajuda e aplicá-la. O que eu tinha a perder? Minha coerência, é claro. Mas, nessa altura, coerência já não valia mais nada. Impressionantemente, me senti melhor. Acho que é porque eu comecei a respirar fundo e parei de me preocupar com as seiscentas coisas urgentes com as quais eu geralmente me preocupo.

Quarta-feira, meu amigo excêntrico aceitou minhas desculpas, uma semana depois de eu pedi-las. Era um sinal do positivismo. Antes disso, minha positividade me decepcionou algumas vezes, mas depois consertou a decepção, o que gera um sentimento estranho. Comemoramos que o que deu errado foi consertado. Esse é meu novo lema de vida: celebrar que a própria desgraça entrou em desgraça e tudo voltou ao normal. Eu só tenho o que sempre tive, só não perdi nada, apesar do estresse.

Estou tentando me contentar com isso, como disse o filme de autoajuda. Vou falar pra vocês, não é fácil viver assim, tão positivo. A gente tenta, mas vai vindo pedrada de tudo quanto é lado. Até tentamos desviar, mas uma ou outra nos acerta e é inevitável que recomecemos aquele ciclo negativo. Opa, vou parar por aqui. Estou começando a ir para o lado ruim de novo. Meu filme de autoajuda disse que eu tenho que sorrir pro diabo que as coisas boas acontecerão. Estamos no aguardo.

 

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