ANO: 25 | Nº: 6379

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
09/12/2017 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

A gravata segundo Balzac

Uma gravata bem posta esparge-se por todo o traje como um perfume exótico; ela está para o vestir assim como a trufa está para um jantar. Bonito, não? Quem diz é mestre Honoré. E não é trecho de alguma das suas maravilhosas novelas. Mas texto em que ele, talvez entediado na mansarda em cinzenta tarde parisiense, à espera de mulher de trinta anos, aproveita para redigir tratado sobre os excitantes modernos como a aguardente, café e tabaco; e como ela demorava, o escritor lasca dois estudos fisiológicos, um sobre vestimentas e outro sobre a gastronomia.Tudo “très chic”.
A gravata é palavra de origem francesa (cravate) e significa “uma tira de tecido, estreita e longa, usada em volta do pescoço e amarrada em nó ou laço na parte da frente”, segundo Aurélio. Há outros significados: golpe no pescoço, simulação esperta de negócio; alguns conterrâneos, alhures, apreciavam “passar a gravata colorada”, que se traduz por “botar a língua para fora”.
Com ironia Balzac alude que a Revolução foi para o vestir, como para a ordem civil e política, um tempo de crise e anarquia, pois introduziu, com a gravata uma dessas mudanças orgânicas que vieram, com séculos de intervalo, renovar as coisas. Sob o antigo regime, diz, cada classe da sociedade tinha seu modo de vestir, reconhecia-se pelo traje o senhor, o burguês ou o artesão. Então, a gravata não era nada mais que uma vestimenta necessária, de tecido mais ou menos rico, mas sem consideração ou importância pessoal. Enfim, os franceses se tornaram todos iguais em seus direitos, e também em sua vestimenta, e a diferença no tecido ou a diversidade deixou de distinguir as condições. Como reconhecer-se no meio dessa uniformidade? Por que sinal exterior distinguir a classe de um indivíduo? Desde então, estava reservado à gravata um destino novo, ela nasceu para a vida pública, adquiriu importância social, pois foi chamada a restabelecer os matizes inteiramente apagados do vestir, “tornou-se o critério pelo qual se reconheceria o homem digno desse nome e o homem sem educação”. Veja só.
Depois da descoberta dessa proeminência histórica e social, Balzac afirma que, dentre todas as partes das vestimentas “a gravata é a única que pertence ao homem, a única em que se encontra a individualidade”, eis que o mérito do chapéu, da roupa, das botas cabe ao chapeleiro, ao alfaiate, ao sapateiro, que os entregaram com todo o seu brilho, sem ajuda ou apoio, enquanto com relação ao retalho que a lavadeira entrega engomado “tirareis partido dele, é o bloco nas mãos de Fídias ou de um entalhador de pedras, quanto vale o homem, tanto vale a gravata; para dizer a verdade, a gravata é o homem; é por ela que o homem se revela e se manifesta”!
Agora,  entendo mais o saudoso Paulo Brossard que uniu a erudição com a elegância, o talento jurídico, o chapéu e o inimitável nó britânico de suas gravatas.
Outrora até com uniforme do colégio se usava a gravata, frequente ainda na mocidade quando ninguém melhor aprumava sua gravata que o Max, o Djalma ou o Mathias; meu irmão George é ainda seguidor genuflexo do costume; muitos juízes, médicos e advogados sentem-se despidos sem o ornamento.Hoje, segundo os cronistas, quem melhor porta o tope clássico em combinação com ternos sempre bem cortados é o cartesiano Décio Lahorgue.
Concluo como Balzac: uma gravata bem posta é um desses traços de gênio que se sente, admira, mas não se analisa nem ensina.
(Aonde será que guardei as minhas?).

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