ANO: 25 | Nº: 6278

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
09/12/2017 Marcelo Teixeira (Opinião)

Empoderar ou desoprimir?

Confesso que chego a ter brotoejas quando ouço a palavra empoderar, empoderamento ou outras derivações. Até o revisor ortográfico instalado no meu computador também não simpatiza muito com estas expressões, tanto que, neste momento, elas estão sublinhadas de vermelho indicando que elas não constam do seu vocabulário composto por milhares de verbetes.
Brincadeiras à parte, é óbvio que se trata de mais um neologismo que virou febre nacional, sobretudo entre aquelas pessoas que militam na causa feminista.
Ainda que eu admita não estar livre de preconceitos machistas, pois sou fruto de uma cultura machista que me moldou e continua me moldando por mais de meio século, minhas brotoejas estão mais relacionadas ao cuidado que tenho com o uso e significado das palavras – por ser professor e metido a escritor – do que com os meus preconceitos, jamais negados, embora raramente confessados pública e explicitamente.
A palavra “empoderar” deriva da união do prefixo “em/en”, mais o substantivo “poder”, mais o sufixo verbal “ar” que dá à palavra a condição de verbo, ou seja, de ação, permitindo assim uma gama enorme de derivações decorrente da sua conjugação. O prefixo “em” significa, neste caso, “introdução, introduzir” ou “movimento para dentro” como se verifica na palavra “emagrecer” ou “entediar”. Bueno, saindo da etimologia e partindo para a semântica, empoderar seria, então, o ato ou ação de dar ou conquistar poder.
Para concluir esta análise preliminar, falta o significado da palavra “poder” e, para tanto vou me servir de uma definição antiga e simples que aprendi estudando sociologia com a minha mãe: “Poder é a capacidade ou possibilidade de impor a sua vontade a outrem.”. Na sequência o texto esclarecia que, dependendo da origem desta capacidade ou possibilidade, se revelariam as espécies de poder e, neste contexto, se admitia a existência do poder econômico, ideológico ou político. O poder econômico deriva do dinheiro/capital; o poder ideológico deriva das idéias, da argumentação, do convencimento; já o poder político é o poder raiz, o original, primitivo, irracional, selvagem, irresistível, derivado da força física, da coerção, da autoridade, das armas etc. Origens distintas, mas o mesmo efeito: a capacidade de alterar, influenciar ou determinar a vontade alheia.
Neste contexto, se interpretado literalmente, o empoderamento seria quase que como um levante separatista, ou seja, eu me insurjo contra o poder alheio para implantar o meu próprio poder e, assim, submeter os outros a esse poder que conquistei ou ganhei. De oprimido a opressor sem escalas! Como diria o Padre Quevedo: “Isso non ecziste!”, até porque, voltando às espécies de poder, dois deles (o econômico e o ideológico), pelo menos, derivam de fatores que não dependem de um simples ato de vontade pessoal, mas sim de muito tempo, trabalho, sorte ou talento.
Na verdade, o que se percebe no discurso daquelas pessoas que usam (e abusam) desta palavra é que elas partem de um raciocínio maniqueísta de que: ou tu tem poder, ou tu é vítima de quem tem o poder. De certa forma isso não deixa de ser verdade, mas deixa transparecer, em meu sentir, que o verdadeiro objetivo de quem busca o empoderamento, é muito mais de escapar da opressão do detentor do poder, do que de passar a exercer poder sobre os outros.
Os críticos do construtivismo diziam que muitos dos que tentavam implantá-lo na sua prática pedagógica, acabaram dando origem ao “condutivismo”, deturpando a concepção original. Pois bem, no caso do empoderamento, concluo que hoje tem muita gente falando em “empoderar” quando na verdade buscam apenas “desoprimir”. Será?

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