ANO: 25 | Nº: 6356

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
14/12/2017 João L. Roschildt (Opinião)

O extremo do fascismo

Na boca dos progressistas, epítetos como “fascista” representam ofensas que buscam assassinar reputações. Em sua (quase) totalidade, descoladas de qualquer comprovação empírica ou carentes de uma adequada significação, essas qualificações buscam exterminar sumariamente qualquer posicionamento que critique racionalmente os pressupostos do “progresso”. Ao implodir o sentido das palavras, cria-se um espaço de agressão vazia, mas que tem a possibilidade de ganhar contornos fantásticos em uma época repleta de desconhecimento; se, por exemplo, tudo é “algo”, perde-se clareza e objetividade para definir o que é efetivamente “algo”.

Em “O que é fascismo? E outros ensaios”, o esquerdista (que critica amplamente o totalitarismo de... esquerda!) George Orwell já apontava lúcidos indícios do que foi afirmado. Mesmo que o autor admita não ser possível definir efetivamente o fascismo (em razão da época em que vivia, de verdadeira efervescência do fascismo), há em seu texto uma brilhante recomendação: deve-se “usar a palavra com certa medida de circunspecção e não, como usualmente se faz, degradá-la ao nível de um palavrão”. Ou seja, fundamentar racionalmente é o nível básico exigido para que se use o termo. Do contrário, o fascista pode ser aquele que adora chamar os outros de... fascista!

Na última terça-feira, quatro “estudantes” (ou seriam militantes?) foram detidos após protesto contra o projeto de lei que visa estabelecer a “escola sem partido” no município de São Paulo. O motivo? Alguns “estudantes” manifestaram-se nas galerias da Câmara Municipal de forma a impedir o andamento de uma possível votação do referido projeto. Por gritarem palavras de ordem, não permitiram os pronunciamentos dos representantes do povo (mesmo diante da determinação do presidente da Câmara de que isso só fosse realizado no intervalo entre as falas dos vereadores). Como consequência, foi acionada a Guarda Municipal para a retirada dos “estudantes”. Em coro, o presidente foi chamado de fascista. Mas não permitir que um representante do povo fale, não é típico do fascismo? A liberdade de expressão comporta ausência de regras de comunicação ou gritos estridentes que têm como objetivo impedir o uso racional da palavra? Quais são os grupos organizados que buscam incessantemente e de forma truculenta romper com os laços civilizatórios? Há sustentação nas universidades?

Eric Hobsbawm, renomado historiador inglês de forte vinculação com a esquerda, muito idolatrado no ambiente acadêmico brasileiro e autor do célebre “A era dos extremos”, visto como um grande defensor da democracia, da paz e do pluralismo (basta ver o manifesto da Associação Nacional de História – 05/10/2012), deu uma declaração minimamente polêmica no ano de 1994 e que explica boa parte do pensamento progressista. Em entrevista a Michael Ignatieff, ao ser questionado se a morte de 15 ou 20 milhões de pessoas (sob o regime de Stálin) estaria justificada “caso fizesse nascer o amanhã radiante”, Hobsbawm respondeu categoricamente: sim! A idolatria e a visão romântica em torno daqueles que buscam um mundo melhor na crença de que há a possibilidade da obtenção de um paraíso na Terra é entorpecente. Justificar um verdadeiro genocídio perpetrado por uma ideologia nefasta? Coisa de fascista! Mas nunca esqueça: fascistas são os outros...

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