ANO: 24 | Nº: 6083

Fernando Risch

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Escritor
15/12/2017 Fernando Risch (Opinião)

A meritocracia, na prática, só funciona regulamentada e dentro de uma amostragem

Um dos pilares do discurso econômico liberal é que se as pessoas se esforçarem, sem considerar qualquer outro fator de influência – como status social de nascença, por exemplo -, essas pessoas serão bem sucedidas, em prestígio e financeiramente. É a utopia do liberalismo econômico. Na prática, meritocracia só serve para manter o status quo e beneficiar aqueles cuja linha de largada está mais próxima da linha de chegada.
O discurso meritocrático morre quando equiparamos o mérito em diferentes profissões. Comparemos um advogado e um pedreiro, por exemplo. A hora de trabalho de um advogado, por óbvio, vale mais que a hora de trabalho do pedreiro. Quanto mais o advogado se esforçar, mais ele ganhará dinheiro e, geralmente, em longa escala. O pedreiro também. Se ele fizer mais horas de trabalho no dia, teoricamente, ganhará mais. Mas, no fim, quando equiparamos os resultados, neste caso financeiros, o pedreiro ganhou menos, porque sua hora vale menos e sua escala financeira dentro da própria profissão é mais curta.
No prestígio, o pedreiro – uma profissão que precisa ser exercida por alguém, ou muitos "alguéns" - tem seu mérito. Cada casa, prédio, estrutura que vemos, usamos, moramos, são feitas pela mão de obra de pedreiros. Assim como, um advogado usufrui de prestígio como bom profissional. Mas quando se compara financeiramente, a meritocracia brindou o advogado com mais créditos, por mais que o pedreiro tivesse se esforçado tanto quanto o advogado e também merecesse tal bônus. O mérito não o atingiu.
Para a meritocracia ser válida, ela parte de uma regulamentação interna, indo diretamente de frente ao discurso liberal que a celebra. Exemplificando: dois advogados, que trabalham na mesma área, com os mesmos currículos, são equiparados para ver qual deles receberá mais prestígio e dinheiro por méritos próprios. Em suma, dois advogados trabalhistas (profissão em extinção) partem da mesma linha de largada, aquele que se esforçar mais em comparação ao outro, que se mostrar melhor profissional, será brindado com os bônus da meritocracia.
Acreditar que, porque somos seres humanos iguais in natura, todos saem do mesmo ponto e aquele que se esforçar mais terá mais sucesso, sem considerar a complexidade social, não apenas do Brasil, mas do mundo, é uma insensatez. Quem admite que vivemos numa sociedade desigual não pode se firmar em pensamento tão simplista. A meritocracia só funciona dentro de uma amostragem pequena, limitada e controlada. Qualquer coisa fora disso, é uma imensa exceção à maciça regra.

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