ANO: 26 | Nº: 6524

Viviane Becker

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Colunista social do Jornal Minuano, Viviane Becker é experiente jornalista de geral e conhecida editora do caderno de variedades Ellas.
15/12/2017 Caderno Ellas

Espaços de memória

Foto: Reprodução JM

Imagem do Palácio de Queluz
Imagem do Palácio de Queluz

Espaços de memória

O Palácio de Queluz e o prédio da Sociedade de Beneficência Portuguesa:

aproximações arquitetônicas

 

Elaine Maria Tonini Bastianello – Associação dos Amigos dos Museus de Bagé
Sérgio Claudino – Universidade de Lisboa

 

Vivenciar os locais que foram cenários de entrelaçamento entre Portugal e o Brasil proporciona oportunidade ímpar para entender mais o contexto histórico entre ambos os países. Entre esses, destacamos o Palácio de Queluz e a Sociedade Portuguesa de Beneficência.

A intenção de trazer estas edificações como foco de reflexões tem por finalidade questionar o que vem ocorrendo há várias décadas em Bagé, onde costumam dizer que o prédio que acolhe o Museu Dom Diogo de Souza seria uma réplica do Palácio de Queluz, localizado em Portugal, país que tanto impôs alvarás, acordos e tratados ao Brasil.

O Palácio Nacional de Queluz, localizado a 12 km da capital Lisboa, serviu de residência para duas gerações de monarcas. Nesse palácio residia a monarquia portuguesa, quando esta se deportou para o Brasil. Em Queluz, nasceu e morreu D. Pedro I do Brasil, em Portugal, conhecido como Rei D. Pedro IV.

Em 1654, D. João IV cria a Casa do Infantado, que inclui a Casa de Campo de Queluz. Em 1747, o Infante D. Pedro III deseja que esta Quinta adquira uma envergadura de Palácio Real e, assim, Queluz passa por um processo de várias intervenções arquitetônicas e paisagísticas, tornando-se cada vez mais refinado. Mais tarde, este palácio é doado ao Estado Português por D. Manuel II, após o regicídio que vitimou o Rei D. Carlos e o Príncipe Herdeiro, pouco antes da instauração da República, em 1910.

As riquezas de detalhes distribuídos harmoniosamente por seus dois andares, com várias salas que conservam o mobiliário da época, compondo inúmeras alas decoradas, são uma raridade. Seus jardins, compostos de alamedas e chafarizes com diversas esculturas, criam vários espaços de lazer e entretenimento onde existe um canal artificial que servia de recreação para os infantes navegarem, este com 115 metros de comprimento todo revestido de azulejos portugueses do século XVIII.

Ao visitarmos Queluz, tivemos a oportunidade de pensar sobre possíveis aproximações arquitetônicas. Antes, é importante alertar que ambos foram edificados em espaços, épocas, funções e recursos financeiros distintos. Queluz foi construído a mando da realeza no século XVI, para uso residencial de veraneio, enquanto que o espaço da Sociedade Portuguesa foi concretizado pelos imigrantes lusitanos aqui radicados, no século XIX, para uso hospitalar, com verbas próprias, em benefício de seus associados. Mas não foi essa a sua primeira função, pois o mesmo foi primeiramente alugado para o Exército Nacional, com o objetivo de abrigar a Enfermaria Militar durante a Revolução Federalista de 1893.

Somente no ano de 1975, após ter sido restaurado pelo poder público municipal, o então prédio do hospital passou a sediar o Museu Dom Diogo de Souza.

Comparar o prédio da Beneficência com a edificação do Palácio é um grande exercício de abstração. Queluz, como foi pontuado, apresenta diversas entradas, pátios internos e jardins. Nem por isso, o prédio de Bagé perde o seu brilho e a sua magnitude, porém são arquiteturas distintas.

Contudo, no Sul do Brasil, já a caminho do Uruguai, este prédio surpreende, desde logo o itinerante português, que no belo edifício logo reconhece traços arquitetônicos monumentais do seu país e não precisa ler a base da estátua para saber que nela está representada o grande poeta épico português, Luis de Camões. Talvez não fique menos orgulhoso dos seus antepassados terem construído, para Bagé, um edifício que funcione como Sociedade Portuguesa de Beneficência, ou seja, como instituição de bem fazer – na continuidade das melhores tradições humanistas lusas.

A Sociedade Portuguesa de Beneficência representa um incontornável elo de ligação entre a cidade de Bagé e Portugal. E este é um legado e um desafio que os autores deste texto não enjeitam.

 

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