ANO: 25 | Nº: 6335

Dilce Helena Alves Aguzzi

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Psicóloga
19/12/2017 Dilce Helena Alves Aguzzi (Opinião)

Férias, crianças e... deixa que aconteça

Mal começou o período das férias escolares e muitos pais já estão preocupados com o que fazer com as crianças. Alguns estão adiantados fazendo programações ou já organizaram uma agenda de atividades com os amigos e colegas.
Muito bom pensar em diversão para os filhos durante as férias, um pouco de programação e organização não fazem mal a ninguém. Entretanto, quero salientar a verdadeira obsessão que alguns pais estão desenvolvendo por manter seus filhos ocupados e acompanhados. Em contato constante com os pais de colegas, planejando e agendando cada semana das férias dos filhos, esses pais pensam que estão fazendo um grande bem quando na verdade estão lhes impedindo a relação com a realidade interior, tolhendo a espontaneidade e golpeando a raiz da criatividade, pois não estão deixando as coisas fluirem livremente. Não compreendem que manter os filhos ocupados o tempo todo lhes tira a iniciativa de buscar os próprios interesses.
Este fenômeno tem acontecido, entre outras coisas, pelo verdadeiro pânico que determinados pais sentem de que seus filhos se entediem e se frustrem. Mal sabem eles que o tédio e a frustração também são importantes na infância, em doses moderadas, e estas emoções perturbadoras colaboram para o incremento da criatividade, autoconhecimento, capacidade de divertir-se sozinho e, principalmente o surgimento da tolerância à frustração, capacidade esta diretamente relacionada à realização na vida adulta.
Praticamente todo adulto tem lembrança de férias intermináveis em que teve de inventar alguma coisa para fazer a fim de enfrentar o tempo livre. Lembro, especialmente, de um verão destes de minha infância em que não tinha nada para fazer, surgiu ao natural a decisão de pegar um livro do Érico Veríssimo que havia por perto, “Música ao longe”, que inaugurou minha paixão pelo autor e a voracidade para leitura, hábito que só me trouxe benefícios.
É importante permitir que a criança simplesmente sinta do seu jeito o tempo passar, perceba as diferentes fases de sua vida, sinta o tédio ou a frustração, crie estratégias e tome iniciativas próprias para resolvê-los. Pais que deixam este processo acontecer, estando por perto sem interferir em demasia, conseguem respeitar a personalidade de seus filhos e vê-los crescer emocionalmente em busca de seus próprios interesses. 

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