ANO: 25 | Nº: 6404

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
21/12/2017 João L. Roschildt (Opinião)

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É cada vez maior a separação entre a intelectualidade e o cidadão comum. Talvez uma das razões seja o fato de que, enquanto os intelectuais buscam estabelecer uma engenharia social para modificar o mundo à sua imagem e semelhança, o cidadão comum busca simplesmente conhecer o mundo real e extrair o que há de melhor nele. Ao mesmo tempo, o homem de “senso comum” é sempre visto com preconceito pelos intelectuais: enquanto estes são a vanguarda de uma sociedade perfeita, aqueles são a materialização dos males da tradição. Não à toa, os renomados espaços de produção do pensamento estão cada vez mais desprestigiados pela sociedade.
As universidades no Ocidente, infestadas de um pensamento monolítico-progressista-politicamente correto, são um bom exemplo disso. Elas, que nasceram e existem às custas dos esforços incansáveis de alguns em prol da liberdade, estão cada vez mais reforçando modelos que não preservam a sua própria natureza.
Recentemente, a professora assistente Lindsay Shepherd, da Wilfrid Laurier University (Canadá), teve a “infeliz” ideia de mostrar um vídeo aos seus alunos em que ocorre um debate com a participação do professor Jordan Peterson. Ele, que julga um equívoco o uso de pronomes de gênero neutro ou mesmo a noção de que o gênero é construído socialmente, aspectos previstos na legislação canadense “Bill C-16”, ganhou ampla notoriedade por indicar que tal lei é um ataque à liberdade de expressão por possibilitar punições aos cidadãos que negam a teoria de gênero. Após a exibição do vídeo, Lindsay, que inclusive discorda de alguns pontos defendidos por Peterson, foi repreendida (“punida”) por três membros responsáveis pela instituição em uma reunião. Dentre as acusações proferidas, que supostamente foram originadas das reclamações de alunos ofendidos, havia a de que a divulgação do vídeo de forma neutra pela professora (Lindsay só desejava estimular o debate e não tomar partido por uma causa) “seria similar a ter uma opinião neutra sobre Adolf Hitler”, o que teria gerado um “ambiente tóxico” aos discentes. Lindsay apresentou um contra-argumento: para ela, nas universidades, todas as perspectivas de análises racionais são válidas e deveriam fomentar sérias reflexões. Resultado? Um dos membros disse que “isso não é necessariamente verdadeiro”. Em outras palavras, somente a agenda progressista é passível de ser louvada. E mais: Lindsay deveria mostrar todos os seus futuros planos de ensino, e suas aulas seriam monitoradas pelos membros da faculdade.
Como tudo isso foi descoberto? Lindsay gravou (secretamente) a reunião e disponibilizou no YouTube. Após enorme repercussão, a vice-chanceler da universidade pediu desculpas públicas pelo ocorrido. Mas, reparem as consequências: “Existe definitivamente uma divisão em como eu sou tratada. Online tenho toneladas e toneladas de apoio e tenho o apoio do público em geral. No campus de Laurier, sou tratada com desconfiança e estou alienada”, disse Lindsay. É a singela e enigmática expressão da psicopatia dos intelectuais: defendem a liberdade tolhendo a liberdade. Como diz o professor Carson Holloway, “o único modo de proteger os estudantes de ideias ruins é oferecendo a eles as ferramentas intelectuais para examiná-las criticamente, o que, novamente, requer liberdade de expressão para essas ideias”.

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