ANO: 25 | Nº: 6208

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
23/12/2017 Marcelo Teixeira (Opinião)

O direito de sonhar acordado

Não há na legislação brasileira nenhuma norma expressa e clara que garanta o direito de sonhar, mas qualquer acadêmico das ciências jurídicas facilmente poderia entender e responder que o direito de sonhar está incluído no direito à livre manifestação do pensamento, garantido constitucionalmente nas cláusulas pétreas.
Ao dizer isso, encaminho o raciocínio de que, aqui, o verbo sonhar não diz respeito a ainda misteriosa atividade cerebral que ocorre enquanto dormimos, mas sim ao ato de sonhar acordado, de imaginar, fantasiar, projetar, antecipar, idealizar, premeditar, etc.
O sonhar dormindo é algo natural, não é exclusividade dos humanos e, até onde eu saiba, incontrolável. Por tudo isso, me parece que não há que se falar em “direito” de sonhar dormindo. Seria mais ou menos como falar em “direito de respirar” para quem vive.
Todavia se o assunto for sonhar acordado, aí já podemos falar em “direito”, muito mais pela falta de respeito de algumas pessoas que se incomodam com esta atividade e fazem questão de reprimir os sonhadores, do que pelo desejo, mania ou intenção do sonhador.
A primeira e mais forte repressão que a maioria dos humanos experimentam, é aquela sem graça e sem propósito que visa convencer as crianças de que Papai Noel não existe. Pra quêêê? Que mal há nisso?
Mas sempre tem o “sem infância” que faz questão de estragar a fantasia dos inocentes.
Depois, à medida que vamos crescendo, vamos percebendo que os “sonhadores” são reprimidos, criticados, sofrem um verdadeiro bullying dos realistas, materialistas e pragmáticos, que parecem não suportar ver alguém sonhando, navegando e delirando nos seus pensamentos fantásticos. Dependendo do grau de imaginação podem ser chamados até de doidos, mas, como dizia Ariano Suassuna, “os doidos perderam tudo, menos a razão. É que eles têm uma razão particular. (...) inconformados com a realidade, inventam outra!”
A repressão é tanta e tão eficaz que quando chegam na “melhor idade” a maioria dos velhinhos já desistiu de sonhar, já não acredita em mais nada, com os pensamentos reprimidos pela censura do realismo, amordaçados mentalmente pela dura, triste, cruel e invencível realidade. E isso, decididamente, não traz felicidade. Só melancolia!
Sempre disse entre amigos que, em meu sentir, as pessoas mais criativas seriam aquelas que assistiram mais desenhos animados quando crianças e, por isso, conseguiram desenvolver esta capacidade que depois não mais se perderia. Assim, considero um crime reprimir a criatividade e a imaginação das crianças mesmo quando elas são fantasiosas demais. É talvez a mais nobre atividade que o nosso telencéfalo altamente desenvolvido nos proporciona: imaginar, criar, visualizar o ainda invisível. E essa capacidade é mais proeminente na infância, por isso não devemos reprimir as crianças a menos que seja estritamente necessário.
É claro que o direito de sonhar tem limites e que não podemos ignorar nem desprezar a realidade, mas uma coisa não é incompatível com a outra. Prova disso é que muito do que faz parte da nossa realidade hoje, não existia no passado, mas habitava a mente daqueles que transformaram seus sonhos em realidade.
Como diz o belíssimo samba-enredo da Mocidade Independente de Padre Miguel: “Deixe a sua mente vagar / Não custa nada sonhar / Viajar nos braços do infinito / Onde é tudo mais bonito / Nesse mundo de ilusão / Transformar o sonho em realidade / E sonhar com a Mocidade / E sonhar com o pé no chão.”
Neste Natal, não tire o direito das crianças acreditarem em Papai Noel. Retarde o máximo possível este contato das crianças com a realidade. Eles terão, depois, a vida toda para se desiludir, mas creio sinceramente que esta habilidade de sonhar poderá fazer bastante diferença para o futuro delas. Feliz Natal!

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