ANO: 25 | Nº: 6330

Fernando Risch

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Escritor
29/12/2017 Fernando Risch (Opinião)

Sempre imprimam suas fotos

Um sociólogo - que não me lembro o nome – disse, recentemente, que num futuro próximo nós não teremos registro de nada. Fotos, vídeos e textos estarão suspensos em nuvens digitais que correm o risco de sumirem da rede ou simplesmente serão obliterados numa limpeza habitual da galeria de um celular.
Não levei tanto a sério, até que aconteceu. Há vinte dias, visitei minha avó. Por alguma razão, resolvi tirar uma foto dela escondido. Minha avó nunca se deixava ser fotografada; não se achava bonita e tinha vergonha. Então eu ergui o celular e tirei sem ela perceber. Eu precisava daquele registro. Geralmente nós sabemos quando algo vai acontecer.
Cinco dias depois ela estava hospitalizada. Três dias antes disso, por ter um celular de pouca memória, apaguei todas as fotos da minha galeria e aquela foi junto, sem que eu percebesse. Hoje eu não tenho nenhuma foto da minha avó, que infelizmente partiu nesta segunda-feira, na manhã de Natal.
Perdi para a tecnologia, fui vencido pelo pós-modernismo. Perdi o único registro que tinha de Teresa Luz Garcia. Por sorte, minha memória ainda se mantém ilimitada, sem precisar de uma limpeza, e manterei para sempre os bons momentos comigo: do ato de não rasgar papel de presente, para poder reutilizar depois, à confecção de empadas; do andar lento e perdido às onomatopeias alegres e sem sentido; do cheiro agridoce de sua pele à inocência de uma pessoa verdadeiramente boa.
Sempre imprimam suas fotos.

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