ANO: 24 | Nº: 6185

Luiz Fernando Mainardi

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Deputado Estadual
03/01/2018 Luiz Fernando Mainardi (Opinião)

Ampliar o olhar

Foto: Lucas Landau / Especial JM

“Fotografar é colocar na mesma linha a cabeça, o olho e o coração”. A frase, de Henri Cartier-Bresson, um dos mais célebres fotógrafos de todos os tempos, não poderia ser mais exata. Como fotógrafo amador, aprecio registrar paisagens e personagens do nosso Pampa, em especial as muitas aves que habitam (e visitam) nossa região. E acompanho com interesse a evolução da fotografia e de seu papel na sociedade. Foto é informação e também é arte, é cultura, é memória. Mas fotografar não é apenas retratar. Há um abismo de sentido entre meramente pressionar um botão e fazer uma fotografia. Percebo a importância do olhar atento do fotógrafo para a captação da essência, do detalhe que faz toda a diferença no conjunto da obra. É fascinante a ideia de capturar um momento significativo, de “congelar” uma cena, uma paisagem, um sorriso, um instante e, de alguma forma, poder voltar a ele.
As imagens têm poder. Como o pincel nas mãos de um pintor, a câmera fotográfica permite, como disse Cartier-Bresson, este incrível alinhamento entre o pensamento, as emoções e a visão. Uma fotografia pode transmitir os sentimentos de quem a produziu, e ainda permitir que outros sentimentos aflorem no observador. Uma imagem pode alegrar, enternecer, perturbar, chocar, entristecer. Pode contar uma história e pode sugerir muitas perguntas. Pode estimular reflexões acerca de temas que transcendem em muito as imagens retratadas. Como exemplo mais recente, temos uma foto produzida na virada do ano em Copacabana, em que um menino dentro do mar observa admirado a queima de fogos, alheio às comemorações das outras pessoas nas areias da praia. A imagem já percorreu o Brasil e ensejou uma grande polêmica e diversos questionamentos. Para alguns, ela representa a desigualdade social; para outros, a solidão. E ainda há quem critique o que considerou um reforço ao estereótipo racista. O que de fato ela representa? É possível determinar o que o fotógrafo quis representar ao clicar aquele momento? É possível que o registro tenha sido meramente casual?
Não há resposta fácil. Talvez, essas perguntas jamais encontrem respostas. Mas é justamente isso. Faz parte da mágica, do poder que a arte tem de fazer pensar e refletir não apenas sobre o momento, mas sobre um contexto mais amplo de nossa percepção do mundo. O que interpretamos ao vermos a cena diz mais sobre nós mesmos do que sobre o que vemos. Aproveito a oportunidade da reflexão para fazer um convite às amigas e amigos leitores. Que neste ano que se inicia, tenhamos a capacidade de ampliar nosso olhar. De observar e apreciar mais e julgar menos. De guardar mais boas memórias e menos rancor. De saber aproveitar a essência dos bons momentos e, por que não, registrá-los.

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