ANO: 25 | Nº: 6379

Fernando Risch

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Escritor
05/01/2018 Fernando Risch (Opinião)

Trinta minutos

Estou há meia hora sentado ao sanitário. Trinta minutos. Uma disenteria teria algum propósito, mas estou olhando para a tela do meu celular, lendo e rebobinando histórias já lidas em grupos de WhatsApp, checando redes sociais já checadas, esperando por diferentes resultados atrativos numa realidade imutável de distração. Tudo isso, sem nenhuma escatologia.
Trinta minutos. Desperdicei um quarenta e oito avos das vinte e quatro horas do meu dia. Levando em conta que dormimos oito horas em média, tiramos dezesseis partes deste todo: um trinta e dois avos do meu dia acordado. Parece pouco, tendo em vista outros trinta e um trinta e dois avos, mas não.
São trinta minutos - meia hora - sentado ao vaso. Tudo isso sem fazer nada útil e sem perceber, até que um grito histérico do lado de fora, numa realidade de sanidade não muito mais incólume da qual me encontro, por uma bexiga apertada ou por saudades da minha presença, atravessa a porta destrancada, perguntando quando irei sair e porque em sã ciência divina estou a um trinta e dois avos de dia útil lá dentro, sentado ao sanitário.
Trinta minutos mortos, matados pela tecnologia distrativa. Bem-vindo ao quinto dia de 2018, ainda de promessas frescas e resoluções cruas para a construção de uma realidade mais proativa e prática, de projetos concretos erigidos de uma folha A4 posta em pé e negativismos combatidos com gigantes tapetes a encobri-los como pó, como se um novo mundo tivesse irrompido dentro do antigo. Aliás, bem-vindo aos tempos. Nossos tempos. Tempos da inevitável perda de tempo imperceptível.

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