ANO: 23 | Nº: 5834

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
06/01/2018 Marcelo Teixeira (Opinião)

Imaginação fértil e complexada

Assim como a salvação está dentro (e não fora) de cada um de nós, por razões óbvias e invertidas, a perdição também. Quem discorda, costuma responsabilizar outras pessoas, coisas ou circunstâncias por tudo de ruim que lhe acontece. O engraçado é que estas mesmas pessoas nunca acham que as coisas boas que lhe acontecem vêm dos outros. Então, para elas, as coisas boas decorrem dos méritos próprios e as coisas ruins sempre têm a mão alheia e não raramente com a intenção premeditada de lhes prejudicar.
Apurei, consultando o Dr. Google, que esta mania de perseguição atende pelo nome de paranoia. Pedindo perdão antecipadamente aos profissionais entendidos no assunto, seja pelo erro de diagnóstico, seja por alguma bobagem de minha parte no texto a seguir, mas se tem algo na personalidade alheia que é extremamente irritante, é essa mania de colocar a culpa nos outros e imaginar estar sendo perseguido e prejudicado deliberadamente.
Tudo bem que, eventualmente, principalmente antes de alcançar a maturidade, todos nós possamos ter experimentado esta sensação, mas daí a desenvolver a convicção inabalável de que isso seja verdade, além de frequente ou permanente, vai uma distância cavalar.
Ao longo da vida testemunhei algumas situações – e não foram poucas – de pertencer a algum grupo e ouvir de alguns de seus membros, que os demais estavam conspirando, reprovando, discriminando, repudiando, não aceitando o que o “perseguido” era, tinha ou gostava. Por estar no meio daquele conflito imaginário, eu sabia que aquilo não era verdade, mas ficava ouvindo com espanto aquele relato detalhado do “perseguido”. Tudo era interpretado como algo armado, combinado com requintes de crueldade, inclusive entre pessoas que nem tinham intimidade para tanto. E, às vezes, o “perseguido” era tão descuidado que não percebia que suas suspeitas recaíam, também, sobre mim. É exatamente num momento como este que a gente confirma que o “perseguido” efetivamente sofre de algum distúrbio de natureza mental.
Nestes casos o que se percebe é que aquilo que o “perseguido” supõe despertar a rejeição do grupo, na verdade lhe atormenta ou incomoda por si. É ele mesmo que se rejeita, que não se aceita, que não se perdoa, mas como talvez seja muito duro admitir isso, por autodefesa ou fuga, responsabiliza os demais por aquele sentimento que é próprio.
Ainda que os ditos populares afirmem que “de médico e louco, todo mundo tem um pouco” ou “de perto, ninguém é normal”, talvez o comportamento acima destacado não caracterize alguma espécie de loucura, visto que é bastante comum. Assim, não sendo loucura, tudo indica se tratar de um misto de imaturidade com egocentrismo, caso esta combinação não seja uma redundância. Gente mal resolvida ou mal intencionada que adora criar inimigos imaginários, se vitimizar e, assim, não assumir suas responsabilidades para ficar colocando, nos outros, nos astros, no destino, nas forças ocultas ou reveladas, a culpa por suas próprias mazelas.

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