ANO: 24 | Nº: 6038

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
06/01/2018 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

O recanto do Ito

No princípio eram dois. Como advogado precisei de notificação extrajudicial, e Jorge Alexandre Saes foi indicado pelo Tito (ou pelo Ary) para cumprir a diligência. Jorginho fora meu aluno no Estadual e, na época, no Direito da FUnBa. Durante o trajeto um suculento mate servido pelo eficiente servidor público. Exitosa a missão combinou-se encontro no domingo seguinte para saborear novo chimarrão. Morava ele na Rua Sete nº 180, e logo fomos para a Praça da Matriz. Isso há quarenta anos! O evento se repetiu na outra semana logo se incorporando Jorge Chagas, também acadêmico quase graduado, que já ensaiava nas lides jurídicas e como monitor de certa disciplina na Faculdade. Mais tarde tive a ventura de apadrinha-lo num júri. Os três se passaram a movimentar-se pelas praças, com certo egoísmo, se reconhece, para não habituar os que vinham fazer consultas ou simplesmente nos acariciar com seus afetos. Depois o grupo aumenta quando José Walter Maciel Lopes, outro aluno e afilhado, se junta contribuindo com a gostosa erva Cruz Alta. Waltinho era militar e muitos domingos, quando ele estava de serviço, a confraria funcionava nos bancos perto da capela do Hospital Militar. Mas não se abdicou dos deslocamentos, seja para a Praça da Estação, a de Desportos, aqui com perigosa exposição, Praça do Silveira Martins, onde se domiciliava núcleo de mate do Ireno Godinho e do João Maia; e até Praça das Carretas. O quarteto teve longa existência, e acontecia também nos sábados de manhã, quando a gente espiava pessoas, e livros, parados nas vitrines da Predileta, logo também na frente da loja da Leila e do Tonico; e quando sol estava forte, perto da Rádio Difusora.
Quando se decidiu fincar raízes na Praça da Matriz e adotar a companhia do impávido Dr. Pena e do garboso General Carlos Telles, à sombra das árvores que assistiram ao cerco de Bagé e aos festejos do casamento do General Osório na igrejinha que abrigava a imagem de São Sebastião, ficou injusto o desfrute isolado de tantas boas presenças, e aí começa, ainda tímido, o aumento da turma: acho que um dos primeiros foi o Antoninho Ferreira com sua alegria e humor; Paulinho Ferraz e Décio Lahorgue, foram outros, depois ocasionais; meu irmão Fernando; George, às vezes, quando voltava de sua ida até cemitério para honrar minha cunhada; João de Deus Gonzales; Armando Salim, vindo de um jogo de tênis no Cantegril; Alcides Tidão Martins, professor, atleta, gestor de grandes iniciativas esportivas, remanescente das origens; Carlos Eduardo Torrescasana; Vânio Minoto e seus carrões semanais; e muitos.
Penso que outro instante foi restarem anexados alguns assíduos frequentadores do Café do Marquinhos: Juca Abero, que daria o tom político e literário às conversas deliciando com as histórias da Mina; Ito Carvalho, empresário, radialista e intelectual, depois figura central na agregação de todos, cozinheiro das deliciosas massas das jantas anuais nas empresas do Waltinho; Waldir Ramos, construtor de significativos prédios na cidade, bajeense honorário de intensa participação comunitária e memorialista; e Edmundo Rodrigues, o “pintor maldito”, como a gente brincava, e que nos domingos abria o porta-malas de seu velho Monza de onde retirava as cadeiras de praia que espalhava na calçada atrapalhando a saída da missa das dez; e dele voavam desenhos, esboços e aquarelas que negociava.
Nesta época, residentes do redor da praça se aconchegaram, como Carlos Alberto Moraes e Claudiran Nunes, esse último responsável também pelas cadeiras, às vezes preocupado com seu inquieto cachorro, e ora personagem imprescindível, especialmente quando termina o conteúdo das térmicas. No passado, quando se carecia de água fervente, a atenta mãe do Dieguito Piñerua, que de sua janela nos fazia respeitar o devido recato, já providenciava a substituição; defronte ao grupo, dos altos do sobrado do Dirceu Suñe, a filha sorvia seu próprio chimarrão como se integrada na parceria lindeira. E os menonitas, quando encerrava o culto, não deixavam de saudar cristãmente o aglomerado de pecadores.
Os últimos juramentados que vieram a acrescer um “alicerce tecno elétrico” foram os engenheiros Jorge Dias da Costa, Roberto Seixas e Luciano Vacilotto, antes também confrades no cafezinho que aliaram suas afeições e fraternal solidariedade aos iniciados da seita, costurando as ausências dos que trocaram de domicílio ou de andar. Quando aqui os egressos não deixam de rezar homilia no altar de seiva e afeto. Quando alguém deseja saber se estou em Bagé, basta vigiar a praça. Ali a grama, algum dia, aplaudirá minhas cinzas. Embora, confesso, vá me esforçar para não pagar a dívida.
Neste domingo somos reconhecidos à administração municipal e ao secretário Ronaldo Hoesel que, às instâncias do Claudiran, após a demolição de antiga banca, redesenhou o local com novos e belos assentos, denominado o local de “Recanto do Ito”, homenagem ao mineiro que amou essa cidade e que, a cada domingo, com sol ou chuva, era o primeiro a aguardar que os demais desembarcassem.
O Jorginho Saes, historiador do grupo, ainda conserva a primeira cuia que viajou de mão em mão, por muito tempo, nesses quarenta anos. Nela está escrito: “Mate, doce amargo da amizade”.
E precisava mais?

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