ANO: 24 | Nº: 5963

João L. Roschildt

joaoroschildt.jornalminuano@outlook.com
Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
11/01/2018 João L. Roschildt (Opinião)

Coisas de pensadores (ou Karnalices)

Às vezes, preocupar-se com alguns assuntos gera um enorme desgaste. Em inúmeras oportunidades, realizar um comentário sobre algo flagrantemente equivocado pode macular os relacionamentos humanos, além de não se obter os resultados pretendidos. Ao abrir a boca, há de se ter a noção que a mosca pode adentrar também pelos olhos e ouvidos. No entanto, existem momentos em que se faz imperiosa a crítica ou o comentário. É o chamado da razão, uma característica humana. Nem todos a utilizam. Nem todos possuem vontade de utilizá-la. Usando-a ou não, paga-se um preço.

Falar sobre o triunvirato Karnal-Cortella-Clóvis de Barros é realmente necessário. De acordo com a revista IstoÉ, eles “se tornaram os maiores pensadores contemporâneos do Brasil” e “fazem a cabeça dos jovens”. Portanto, há de se imaginar que representam a fina flor da sapiência... #SQN (em uma linguagem bem contemporânea e muito culta).

Recentemente veio à tona um comentário de Leandro Karnal em que ele compara os 300 de Esparta (e o famoso filme de Zack Snyder) a terroristas islâmicos. Karnal diz que, no pavoroso filme, os 300 espartanos são brucutus anabolizados que enfrentaram um exército numericamente superior, vindo a morrer. O pensador, ao criticar a maneira ocidental preconceituosa de ver o mundo, diz que ao passo que os 300 foram transformados em heróis por morrerem por aquilo que acreditam, “quando um islâmico se mata pelo que acredita, ele é um fanático, ele é um fundamentalista”. Inúmeros apontamentos críticos poderiam ser feitos aqui, mas creio ser suficiente dizer que o absurdo relativismo de Karnal chega ao ponto de comparar a defesa da liberdade de um povo, mesmo que com o custo da vida (caso dos espartanos), com homens-bomba que buscam punir “infiéis” por estes não acreditarem na “verdadeira” religião. Uns morreram pela liberdade, ao passo que outros morrem tolhendo a liberdade alheia. Uma diferença substancial e que um dos “maiores pensadores brasileiros” desconsidera.

Essa fala faz parte da palestra “Confrontos religiosos e fundamentalismos”, de abril de 2007, no Programa Café Filosófico, e não é o único trecho digno de nota crítica. Para o referido historiador, o Livro Sagrado islâmico não obriga as mulheres a usarem véu (seria um desconhecimento do Corão 24: 30-31?), sendo que é exclusivamente na Bíblia, no Novo Testamento, mais precisamente em São Paulo, que há tal ordem: “As mulheres devem usar véu, cobrir a cabeça e calar a boca nas igrejas”, disse o grande intelectual Karnal, que abusa da má intepretação bíblica para imaginar uma cultura ocidental provavelmente pior do que aquela que é praticada nos Estados teocráticos muçulmanos.

Mas isso não foi suficiente. Karnal disse que, ao responder a uma senhora que só reclamava do véu islâmico, enquanto para os ocidentais o véu é agressivo, para o islâmico o botox assim o é. Uma comparação espetacular sobre níveis de liberdade que somente grandes influenciadores de jovens conseguiriam fazer. Mas ainda teve a cereja do bolo: “Eu acho a burka simpática porque ela cria um certo mistério [...] pode ser que debaixo daquilo haja algo interessante”, disse o historiador. Usando sua ideia incomum, Karnal poderia tapar a si próprio para criar um pouco de suspense. Assim, poder-se-ia imaginar haver algo de frutífero em seus pensamentos.

Deixe seu comentário abaixo

Outras edições

Carregando...