ANO: 24 | Nº: 5963

Fernando Risch

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Escritor
12/01/2018 Fernando Risch (Opinião)

Fui pegar meu exame querendo que algo estivesse errado

Sou uma vítima do novo cigarro, a cadeira. Dores na lombar, postura torta, contraturas musculares, desconforto na coluna... a lista é grande. Faz parte dos novos tempos. Ficamos sentados demais, com a postura errada, em cadeiras ruins. Jovens com patologias que até pouco tempo só atacavam quem tinha acima de 60 anos, mais por razão da idade do que propriamente de erros laborais.

Certo dia, por dores excessivas, tive que ser atendido na UPA. Pediram-me uma tomografia. Fiz. Fui ao médico. Ele leu o laudo, não viu o exame. Então me pediu uma ressonância magnética. Fiz. Fui a outro médico. Ele leu o laudo, não viu o exame e pediu mais uma ressonância magnética, afirmando que não tinha nada de errado com aquela.

Eu li o laudo também, estava escrito “Alterações degenerativas” em pelo menos dois ou três itens. Mas, tudo bem, ele é o entendido no negócio, talvez sejam alterações degenerativas que não importam tanto. Então eu fiz a nova ressonância pedida.

Dirigindo até o laboratório para buscar o exame, fui torcendo para que tivesse algo de errado comigo. Não era possível aquela situação. Eu estava torcendo para estar doente. Porque, como eu poderia sentir tantas dores, ter tantas lesões, um formigamento na totalidade de um braço e simplesmente não havia nada de errado comigo? Eu era o Barão de Münchhausen da pós-modernidade.

Desta vez estão escritas coisas como “abaulamento discal” e “sinais sugestivos de espondilólise”. Pesquisei no Google, não é muito bom. Minhas preces foram atendidas, acharam meu problema. Só não sei se vou ao médico. Ou aos médicos que já fui. Tenho medo de chegar lá e voltar com o pedido de outro exame, porque lerão o laudo não muito interessados e sequer olharão as imagens moderníssimas da minha coluna.

Vá que eles não vejam problema nos problemas que encontraram em mim e eu tenho que repetir tudo de novo e, é claro, com as dores me crivando constantemente, como facas afiadas a te cutucar, lembrando todos os dias das suas deformidades.

Se tiver algum médico lendo e que se dê à bondade de olhar a imagem de um exame, não apenas ler um laudo, por favor, me ligue.

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