ANO: 25 | Nº: 6383

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
13/01/2018 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

A fuga de Bento Gonçalves

Nas forças comandadas pelo marechal Marques de Souza que acamparam nas bordas do cerro em 1811 estavam os sargentos Davi Canabarro e Bento Gonçalves, mais tarde líderes farroupilhas.
O historiador Otelo Rosa conta que Bento foi um guerreiro que chamava atenção de seus chefes pela bravura e intrepidez. Assim, em 1818 derrotava o caudilho uruguaio Moreyra; também, logo depois, em Las Canas vence o comandante Francisco Delgado, repelindo ainda ataque de Tomás Latorre; ainda em maio daquele ano aprisiona em Cordovez o coronel oriental Fernando Otorguez, um dos líderes artiguistas; no ano seguinte, em Carumbé, destroça a tropa de Lopez Chico, ficando mais de 80 mortos na batalha; em janeiro de 1820, no arroio Olimar, derrota o coronel Aguiar, um valoroso auxiliar de Artigas. Em 1825, já tenente-coronel e comandante do 39º Regimento de Milícias toma parte no combate de Sarandi, quando as tropas brasileiras chefiadas por Bento Ribeiro são vencidas por Rivera e Lavalleja; promovido a coronel, em maio de 1827, com seus 220 milicianos, abate em São Diogo a cavalaria argentina e, mais tarde, em Sego vence a coluna do general Lavalle. Bento se porta corajosamente no Passo do Rosário em 20 de fevereiro de 1827, havendo dali se retirado com o exército brasileiro. Mais tarde, em 1829, é nomeado comandante da fronteira de Jaguarão e da Guarda Nacional.
Durante a Revolução Farroupilha, todavia, em 4 de outubro de 1835, Bento é aprisionado na Ilha de Fanfa, levado para a Porto Alegre, daí para o Rio de Janeiro e encarcerado na Fortaleza da Laje. Oficializada a República Rio-grandense em Piratini, em 6 de setembro de 1836, Bento Gonçalves é aclamado Presidente, o que reveste de importância a manutenção de sua custódia, pois seu retorno constituiria expressivo reforço moral aos revolucionários, razão porque é deslocado para uma prisão baiana localizada no Forte do Mar ou de São Marcelo.
Era preciso resgatá-lo e trazê-lo para a liderança do movimento farrapo, iniciando-se tratativas que tiveram eficiente e concreta atuação da Maçonaria, a que Bento pertencia no grau Cavalheiro Rosa-Cruz.
Segundo o escritor Gustavo Barroso, ferrenho crítico da instituição, em 28 de junho de 1837, foi lida na sessão da Loja Virtude uma “prancha” do irmão Bento Gonçalves em que pedia socorro; outra mensagem semelhante foi também conhecida no dia 30 na Loja Fidelidade e Beneficência, cujo fundador era, nada mais, nada menos, que o próprio comandante da fortaleza onde se encontrava o prisioneiro. Na mesma loja era membro o negociante português Antônio Gonçalves Pereira Duarte, morador no cais Dourado, e proprietário de barcos.
Ambas as lojas fizeram chegar a Bento as promessas de breve libertação, o que viria a acontecer em 10 de setembro daquele ano: quando o oficial de dia e comandante da guarda deu-se conta da falta do preso, não foi possível disparar o tiro de alarme porque toda a pólvora do paiol estava molhada e não pegava fogo, o que não era de espantar eis que, como dito, quem ali mandava era o venerável da loja que organizara a evasão! E que comunicaria o evento ao comandante da escuna que fazia a vigilância e busca externa somente depois que Bento já estava seguro no Recôncavo ficando os escaleres dos marinheiros gastando voltas no litoral.
Bento Gonçalves se lançara ao mar aproveitando as trevas em hora previamente designada, sendo recolhido por um bote e levado para o Cais Dourado, ocultando-se entre sacos de farinha de barco pertencente a Antônio Gonçalves Pereira Duarte que zarpou para Montevidéu. Teve também participação o cônego Joaquim Antônio das Mercês, venerável da Loja União e Segredo que recebera o apelo inicial de Bento Gonçalves, e traçara com seus irmãos o plano de fuga, movimentando os maçons da Bahia.
Bento Gonçalves chega ao Rio Grande para reassumir a liderança dos farroupilhas e após essa impressionante prova de solidariedade fraternal, episódio que, segundo Barroso, os compêndios de história não registram...

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