ANO: 25 | Nº: 6262

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
13/01/2018 Marcelo Teixeira (Opinião)

As francesas, sempre as francesas...

Se por um lado a França e os franceses protagonizaram importantes páginas da história da civilização ocidental no sentido de quebrar barreiras, contestar o estabelecido, revolucionar valores, costumes, princípios e sistemas, contribuindo decisivamente para a transformação do mundo, por outro, neste momento, reaparecem na cena internacional com uma postura, em princípio, conservadora, ao contestar o movimento feminino que ganhou corpo e relevância nos últimos dias, no palco do Globo de Ouro em Los Angeles, repleto de celebridades mundiais do cinema.
Não se trata de uma contradição, mas sim de uma demonstração de franca independência, mais preocupada com o rumo equivocado que os grandes movimentos de massa estão tomando, do que com o mérito das questões defendidas por eles. O problema é que para atingir os fins pretendidos, estes movimentos acabam não resistindo à tentação de fazer vistas grossas aos radicalismos de alguns de seus membros, dando a entender que o fim pode justificar os meios.
O rumo equivocado está exatamente aí: rebatem a generalização de que são vítimas (e são mesmo), generalizando seus alvos, fazendo parecer, por vezes, que todos os homens são machistas, todos os brancos são racistas, todos os ricos odeiam pobres, todos os heterossexuais são homofóbicos, e assim por diante, sem reconhecer as exceções e relativizar suas declarações. É a generalização das divergências, a transformação de adversários em inimigos, com a intenção desavergonhada de revanche contra tudo e contra todos.
Neste contexto, surge Catherine Deneuve com seu artigo publicado no Le Monde e subscrito por outras 99 francesas para alertar sobre os exageros deste movimento que cresce no mundo e que já chega ao exagero de considerar o cavalheirismo como uma agressão machista. Daqui a pouco, mandar flores pode ser entendido como crime!
Não é de hoje que as francesas povoam o imaginário masculino pelo arrojo, por suas posturas liberais, avançadas, heterodoxas etc., e, agora, com este levante contra aquilo que Deneuve batizou de “novo puritanismo”, esta imagem se reforça sobremaneira. Primeiro por defender os homens. Segundo por contestar aquilo que cada vez menos homens têm coragem de denunciar, reprimidos pelo radicalismo feminazi.
Antes de continuar, é importante frisar alguns trechos do artigo citado, onde fica claro que a autora e as subscritoras não compactuam com o assédio e contestam apenas os abusos do movimento feminista. Em determinado momento o artigo diz que “Estupro é crime, mas tentar seduzir alguém, mesmo de forma insistente ou desajeitada, não é!”. Completam dizendo que embora seja legítimo e necessário protestar contra o abuso de poder, as denúncias perderam o controle, passando a impressão de que todas as mulheres são vítimas impotentes. Para concluir, declararam: “Como mulheres, não nos reconhecemos neste feminismo que, além de denunciar o abuso de poder, incentiva o ódio aos homens e à sexualidade.”
É aí que eu me refiro! Tudo bem que nossa racionalidade nos proporciona a possibilidade de conter ou controlar nossos instintos primitivos, mas no mundo animal, incluindo os insetos, cabe ao macho a iniciativa da corte, a insistência do ato sexual, o convite para as núpcias. Isso é milenar, natural, instintivo e fundamental para a preservação da espécie. Mexer com isso, reprimir isso tem limites e os limites estão exatamente nos casos de assédio e estupro, onde a racionalidade é utilizada a serviço da satisfação sexual, tornando-a covarde e/ou perversa.
Então, subscrevendo o artigo das cem mulheres francesas, mando um recado para a divergência citando o argentino Ernesto “Che” Guevara: “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás.” A defesa das mulheres não tem como pressuposto nem pode ter como consequência a demonização dos homens ou da sexualidade humana. #FicaADica.

Deixe seu comentário abaixo

Mais notícias da edição

Outras edições

Carregando...