ANO: 25 | Nº: 6384

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
20/01/2018 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Romero, Beckmann e Fett

O santo-angelense Léo Petersen Fett estudou Agronomia na Escola Superior de Agricultura de Viçosa concluindo o curso na Universidade de São Paulo, em Piracicaba. Dedicou-se aos ramos agronômico e agrícola, ocupou cargos públicos importantes e se dedicou à cultura do trigo e suas circunstâncias, oportunidade em que conheceu Ivar Beckmann e Nilo Romero. Em 2010, publicou suas “Memórias Vivas”narrando fatos em que se envolveu. Reproduzo trechos em que tais personalidades locais estavam presentes.
Em novembro de 1951, Léo representou o Secretário de Agricultura de Santa Catarina, onde atuava, na primeira Festa Nacional do Trigo de Bagé, conclave que objetivava a divulgação e o fomento oficial do trigo e sua inserção estratégica na problemática brasileira, ou a produção dirigida do trigo brasileiro.O alvoroço era total na cidade em vista de excelente colheita. Aqui vieram secretários de Estado, prefeitos, autoridades federais, estaduais e municipais, deputados, universitários, muitos agrônomos e convidados. Foi ensejo para que se conhecessem as instituições envolvidas com o vegetal e a pesquisa desenvolvida pelo geneticista sueco Ivar Beckmann, criador da variedade “Frontana”, entre outras. Os destaques eram quatro geneticistas, Ivar Beckmann, chefe da Estação Fitotécnica da Fronteira, de Bagé; Adyl Raul Silva, diretor do Instituto Agronômico de Pelotas; Mário Lago, da Estação Experimental de Júlio de Castilhos, criador da variedade “Trintani”; e Benedito Paiva, da Estação Experimental de Veranópolis, e sua variedade “Colônia”. Havia, segundo Léo, uma grande rivalidade e ciumeiras veladas entre os cientistas, o que comprova quando designado relator do trabalho “da Universalidade do Trigo Bagé”, de autoria de Beckmann. Todavia, de expor seu parecer é procurado pelo geneticista que lhe pede para evitar aspectos polêmicos da tese por “razões pessoais”, o que para Léo é uma “ducha de água fria” em suas pretensões de “exibir-se” no plenário com abordagem de intricadas estatísticas e demonstrar seu “nacionalismo exacerbado” com críticas indignadas aos “aspectos econômicos escandalosos, engendrados por lobistas políticos, infiltrados no Congresso Nacional e com executivos cooptantes”.
Nilo Romero foi outro pesquisador muito apreciado por Léo Fett, segundo constatei em alguns encontros com o autor e no lançamento do livro.
Na III Conferência Nacional do Trigo de 1957, ainda em Bagé, Léo havia sido demitido do serviço público pelo Ministro da Agricultura Mário Meneghetti e para desagravá-lo os presentes designaram a cidade de Santo Ângelo para o próximo simpósio (1958); e ali, como era ano eleitoral, estavam convidados Leonel Brizola e Peracchi Barcellos, então candidatos, para declarar o que entendiam sobre a produção e preço do trigo. Enquanto Peracchi foi apenas político, Brizola demonstrou exuberante conhecimento da matéria, prometendo que, se governador, “sentaria na pilha de trigo e não sairia um saco do Estado se as condições fossem prejudiciais”, aludindo à força da bancada gaúcha e presença do Dr. João Goulart na vice-presidência do país. Todos ficam encantados. Quando Léo estava na companhia de algumas pessoas, entre elas o Dr. Nilo Romero, além dos deputados trabalhistas Unírio Machado e Wilson Vargas da Silveira, observa que ao longe Brizola os observava enquanto ouvia ao deputado Alcides Costa, santo-angelense que nada movera pelos triticultores. Repentinamente Brizola investiu contra o grupo indagando “quem estava desvirtuando” seu pronunciamento. Adivinhando a intriga, Léo tentou replicar, sendo interrompido pelo líder trabalhista, seguindo-se desnecessária altercação, o que decepcionou a Fett, já interessado em ingressar no PTB, único que atenderia seus “getulismo e nacionalismo extremado”. Quase se deu uma luta corporal.
Brizola foi eleito e tempos depois ambos se encontraram no Aeroporto Santos Dumond. Embora Léo evitasse, um conterrâneo seu que acompanhava Brizola, ao vê-lo, indagou: "Conheces o nosso governador?". Brizola estendeu a mão e disse:  "Você não é o moço de Santo Ângelo?". Quase nos perdemos na poeira aquele dia!."Que andas fazendo aqui? - indaga Brizola. Léo respondeu que veio tratar de financiamento para sua lavoura em São Paulo. “Lugar de agrônomo gaúcho é no Rio Grande”, disse Brizola; e dispara: “Comparece no Palácio tal dia, quando vamos reunir o pessoal do trigo”.Assim ocorreu e ali dele se aproxima o senador Daniel Krieger indagando: - “Então você é o triticultor carbonário?”Mais outras vezes Léo e Brizola conviveriam em convenções, comícios, na casa de praia da família Brizola em Capão da Canoa; e em Nova York, em 1979, em jantar com a presença de D. Neusa ePedro Simon, que ali fora para convencer Brizola a retornar e ingressar no PMDB.Em 1988, pressentindo que a chave da eleição era São Paulo, voluntariamente Léo percorreu o interior daquele estado, distribuindo o livro “Brizola e os paulistas”.
Léo Petersen Fett faleceu em Porto Alegre, aos 88 anos, em 3 de março de 2012, após cirurgia para retirada de tumor intestinal. Repousa em sua terra natal, cuja história e patrimônio cultural defendeu como poucos.

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