ANO: 26 | Nº: 6577

Fernando Risch

fegrisch@gmail.com
Escritor
26/01/2018 Fernando Risch (Opinião)

Quem luta contra a corrupção não pode comemorar a falência dos três poderes

O cenário é cíclico. Personagens distintos se sentam ao banco dos réus ou são acusados de fazer X ou Y ilegalidades. Para cada um dos casos, para cada personagem, uma reação, um sentimento. Silêncio se contrapõe a gritos; estampidos metálicos contrastam olhos fugidios de vergonha. E o ciclo segue seu rumo e se refaz.

A condenação de Lula em segunda instância, mesmo sem levar em consideração as questões técnicas do julgamento, deveria ser vista como triste e trágica por todos. Os que admiram o ex-presidente, evidente, sentirão o baque (já esperado) da sentença. Mas estes são os que menos deveriam lamentar.

Quem realmente deveria estar pesaroso, triste e cabisbaixo são aqueles que não gostam ou não apoiam Lula e brigam ferrenhamente, com unhas, dentes e o que mais tiver pra ser usado, contra a corrupção. Quando um ex-presidente é condenado a 12 anos e um mês de prisão, isso significa que algo – ou tudo – falhou na política. Não há o que celebrar.

Claro, não é o que se vê na prática. Nem o terceiro e último magistrado concluía seu voto do tamanho do cânone completo de Víctor Hugo, foguetes já eram ouvidos, no mesmo número de vezes que panelas foram maltratadas há um bom tempo, hoje esquecidas, envergonhadas, ao fundo de um armário de cozinha; mas agora ressuscitadas em forma de fênix sonora a perturbar ouvidos caninos.

Do lado jurídico, quem preza pelo direito de defesa e por um julgamento justo, só resta o choro ao ver um processo sendo conduzido aos trancos e barrancos, com um atabalhoamento entre Ministério Público, Sérgio Moro e desembargadores do TRF-4. Um processo tão atrapalhado que lembra Protógenes Queiroz na sua caçada para prender Daniel Dantas, cuja conclusão livrou o banqueiro da pena, tendo que a União ressarci-lo em bilhões, e pôs o delegado no exílio. Um dia, pode acontecer com você – e imagine você, que nunca foi presidente.

E o ciclo volta a girar. O réu de agora era do interesse deste grupo específico de combatentes pela lisura da política brasileira, que levantou das cinzas para berrar e espernear, para gargalhar e celebrar, após meses de silêncio e vista grossa; meses de frases balbuciadas de canto de boca: “Quero todos na cadeia”, logo dando as costas e voltando à programação normal de abastecer o carro com migalhas particionadas em quatro reais e oitenta e nove centavos, que não o fazem chegar até a esquina. “Gasolina cara gera emprego”, finaliza de dentro do automóvel com a parcela atrasada.

Convenhamos, é ódio. Um ódio difícil de entender, mas não de se explicar. Um ódio mascarado de indignação que só vê um lado. Um ódio que sequer se importa com uma eventual injustiça. “Primeiro a gente tira a governanta, depois dormimos por dois anos e acordamos para celebrar um julgamento estranho, que não mudará em nada nossas vidas”.

E a questão nem é se Lula é inocente ou não, se há provas ou não. O caso é que a condenação do ex-presidente não limpará a política dos corruptos, como alguns presumem, apenas dará milho para galinha cacarejar. A corrupção está longe de acabar – aliás, está mais forte e escancarada do que nunca -, mas isso não fará com que estes mesmos que se dizem “contra a corrupção” se mexam por mudanças. No Brasil, o ódio cego é único fator que move.

Quem luta de verdade contra a corrupção não celebra a total falência dos três poderes.

Deixe seu comentário abaixo

Outras edições

Carregando...