ANO: 25 | Nº: 6231

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
27/01/2018 Marcelo Teixeira (Opinião)

O sistema

Viver em sociedade faz com que a gente experimente uma série de fenômenos que só acontecem nela, para ela, por causa dela, em função dela etc. Essa é a beleza das ciências sociais, cuja amplitude está intimamente ligada a essa enorme gama de fenômenos e aos diferentes pontos de vista e análises que cada um deles proporciona.
Entre esses fenômenos há incontáveis sistemas. A própria sociedade é, em si, um sistema, mas que abriga dentro dele inúmeros outros sistemas e subsistemas. Formais e informais, universais e locais, naturais e racionais, inevitáveis e facultativos. Ainda que sejam muitos e diversificados, quase sempre que a gente se refere a algum deles, usa somente o nome genérico e simples: o sistema.
“O Sistema” já foi nome de filmes, séries, livros, estudos, teses e isso revela toda abrangência de seus possíveis significados, dificultando sobremaneira uma definição que abrace tantas variáveis. Todavia, quando a gente fala nele para os outros, quase todo mundo compreende, bastando que esteja claro o contexto em que a palavra foi usada. Assim, mais importante que definir “sistema” é contextualizar sua utilização para facilitar sua compreensão.
Um desses sistemas o PT levou muitos anos para entender. Inaugurou sua trajetória política com um discurso radical, forte, repleto de ameaças ao sistema. Porém, depois de entender como ele funcionava, mudaram o discurso. Tanto que seu líder maior até se definiu como “Lulinha Paz e Amor” na época. Fizeram alianças com adversários históricos, assumiram compromissos impensáveis em anos idos e, assim, finalmente, conquistaram a presidência da república.
Traduzindo, o PT chegou ao poder porque entendeu o sistema. E não só entendeu, como ainda se aliou, se integrou, serviu e se serviu dele. Tanto que, na sua gestão, os banqueiros (inimigos mortais no passado) tiveram ganhos e crescimento nunca antes vistos. Paralelamente, porém, privilegiou as camadas sociais inferiores com geração de empregos, políticas de distribuição de renda e acesso a serviços públicos e privados, conseguindo, assim, diminuir o abismo econômico e social que as separavam das camadas superiores.
Até aqui, tudo bem! Só que o sistema se impôs e veio a preocupação em se manter no poder. A necessidade de preservar a base aliada e de bancar campanhas eleitorais milionárias, inspirou alguns petistas a criar um sistema paralelo que inverteu as prioridades e descuidou dos sistemas pré-existentes envolvidos. Aí a “côsa” degringolou! Os fins passaram a justificar os meios e, apoiados por uma base aliada tão grandiosa quanto mercenária, acabaram virando reféns dela e de seu infinito apetite por dinheiro. Como disse Nietzsche: “Quando você olha muito tempo para um abismo, o abismo olha de volta para você.” Ou, nas versões da sabedoria popular: “Quem dorme com cães, acorda com pulgas” ou, ainda, “Passarinho que sai com morcego, dorme de cabeça pra baixo.”
O projeto de poder petista começou a se aproximar perigosamente das bases dos sistemas mais antigos e, aí, aquela máxima de que o socialismo termina quando termina o dinheiro dos outros, se confirmou. O sistema, mais uma vez, se revelou autônomo e harmônico. Possui uma lógica mercenária antiga e sagrada. Toda vez que sofre uma ameaça, se fecha em copas e se autoprotege com eficiência. O PT vinha tentando e não conseguiu muda-lo, mais por falta de tempo (e de método) do que por falta de intenção. A casa caiu, a lava-jato cresceu e no capítulo mais recente, Lula foi condenado em segunda instância.
Resumindo, o PT chegou ao poder porque aderiu e serviu ao sistema. E só perdeu o poder porque subestimou e afrontou o sistema. O PT saiu, mas o sistema continua!

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