ANO: 26 | Nº: 6553

Fernando Risch

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Escritor
02/02/2018 Fernando Risch (Opinião)

O possível fim das atuais redes sociais

Há 10 anos, quem era ativo na internet lembra-se do Orkut, MSN, IRC e os diversos flogs e fotologs. Todos morreram, tiveram suas atividades inutilizadas e esquecidas e novas redes sociais surgiram, pouco a pouco, para substituí-las.

Esse processo é natural, já observava o sociólogo Zygmunt Bauman, que estudou os fenômenos da pós-modernidade: a rede social tem prazo de validade; ela precisa se reinventar e se modificar constantemente ou morrer. E a morte é rápida e brutal. De tempos em tempos, todas as redes ainda vivas fazem modificações, seja de layout ou de funcionalidade. No geral, trazem estranhamento aos usuários, acostumados em como elas operavam antes. Este estranhamento é o que lhe dá nova vida e o usuário se acostuma rapidamente. Exemplificando, o Twitter passou a ter 280 caracteres por tweet e o Instagram incorporou stories, cópia do Snapchat.

Dentre as redes sociais de hoje, temos o megalomaníaco Facebook, substituto no Brasil do Orkut; o WhatsApp, que cumpre as mesmas funções do antigo MSN, só que melhor; o Instagram, que nada mais é que um fotolog com roupagem moderna; e o Twitter, não menos utilizado, mas menos usual dentre alguns grupos específicos de pessoas, que seria um substituto para os canais do IRC, ao criar timelines interligadas de usuários que interagem abertamente entre si.

Mark Zuckerberg sabe de tudo isso. O Facebook não é mais o mesmo, por exemplo. O algoritmo que usa dados pessoais e de interesse dos usuários está criando bolhas fechadas de informação, onde o usuário não recebe nenhuma informação de fora da redoma, apenas aquilo que o agrada, além de ser bombardeado com anúncios sobre qualquer coisa que fale com frequência. Esse efeito criou timelines entediantes e repetitivas, além de um isolamento entre grupos opositores, o que explica o belicismo em que vivemos, principalmente no que tange a política. Os opositores não se comunicam porque não se enxergam. Não há meio termo.

O próprio conceito de timeline – linha do tempo – está em parafuso, principalmente nas redes em que Zuckerberg é proprietário, com exceção do WhatsApp. Facebook e Instagram não mais atuam por temporalidade, mas por um cálculo dentro do algoritmo que define o que aparecerá ao usuário, não importando quando a informação foi postada. Tudo, diga-se, para “melhorar o desempenho” de quem utiliza. Por exemplo, quando se posta a tag #tbt nas quintas-feiras, indicando uma foto do passado, a foto poderá aparecer na sexta ou no sábado para algum usuário, quebrando por completo a ideia básica da questão. O efeito disso são fotos constantes de certos usuários, não importando quando foram postadas, e o esquecimento total de outros.

Em 2017, segundo dados do próprio Facebook, a atividade dos usuários online caiu 5%, o que representa 50 milhões de horas ativas a menos do que o ano anterior. Isso já mostra um sinal de desinteresse pela rede, criada para se manter ad eternum, substituindo, inclusive, o próprio conceito de internet. Além disso, o mecanismo de patrocínio da rede está cada vez mais complexa e trazendo menos resultado aos usuários que impulsionam anúncios, porque o público indicado para a propaganda não necessariamente está correto, além da distribuição do preço pago ser pouco clara.

O que estamos a ver pode ser um ponto de virada nas atuais redes sociais, a queda completa do maior conglomerado online da história, o que seria difícil, ou a transformação drástica e disruptiva da própria rede, transformando-a em algo novo, menos complexo e mais livre, sem operar através de um algoritmo intromissivo. A vida de uma rede social é limitada e nem o poderoso Facebook tem capacidade de sobreviver ao espírito destrutivo do comportamento humano.

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