ANO: 25 | Nº: 6335

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
03/02/2018 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

O essencial é invisível aos olhos

Foto: Divulgação

- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa, mas você não deve esquecê-la. Você se torna para sempre responsável pelo que cativa. Você é responsável por sua rosa.
Atire a primeira pedra quem nunca repetiu essa frase para impressionar a namorada; ou escreveu em carta! Quem não tenha brilhado pela expressão em aniversário ou bar. Quem?
Outrora, quando as meninas-flor se preparavam para o debute ou escreviam em seus diários de páginas róseas as passagens românticas ou pensamentos; ou quando as moças belas nos concursos respondiam questionários da entrevista, a resposta era unânime quanto ao livro predileto: O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry.
Saint-Exupéry, já festejado em outras crônicas, nasceu em Lyon nos inícios de 1900; estudou em tradicional colégio dos jesuítas em Paris. Adolescente, pela amizade com pilotos, apaixona-se pelaprática decidindo navegar no espaço, atividade em que ingressa após abandonara Escola de Belas- Artes. De Estrasburgo migra para o Marrocos, retornando a Paris, em 1923, quando se acidenta no aeroporto Le Bourget, aproveitando a lenta recuperação para escrever O Aviador, onde narra suas peripécias. Saudoso, retorna aos ares e ao deserto, publicando O Correio Sul, relato da solidão e heroísmo dos pilotos que arriscavam a vida em frágeis aeroplanos para entregar correspondência entre França e norte da África. Muda-se para Buenos Aires como diretor da empresa Aéropostale Argentina implantando a linha de correio aéreo de Natal a Buenos Aires e a Santiago, no Chile. Disso resulta o sensacional Voo Noturno, com as aventuras e os perigos dos voos na escuridão apenas consolados pelas tênues luzinhas das supostas casinhas que brilhavam no breuabaixo e onde se adivinhavam almas protetoras. Já na Air France tenta quebrar o recorde entre Saigon e Paris, mas ao viajar de Nova York para a Terra do Fogo, na Argentina passa por dissabores quase tendo o braço amputado; com a publicação de Terra dos Homens, ganha o prêmio de Literatura daAcademia Francesa e o National Book Award, nos EstadosUnidos.
Durante a Segunda Guerra faz parte do grupo de reconhecimento aéreo francês e acabada a refrega transfere-se para Nova York escrevendo O Piloto de Guerra. Provocado por seu editor, sem nunca haver construídonada para o público infantil, redige o magistral O Pequeno Príncipe, em 1943, onde além do texto desenha as magníficas ilustrações que ainda hoje seduzem e encantam. Decepcionado com a guerra volta à atividade aérea em Argel, na África. Certa vez, embora aconselhado a não fazê-lo, voeja da Córsega, em julho de 1944, quando seu avião desaparece depois da decolagem. Os destroços da aeronave são descobertos perto de Marselha em 2004, mas o corpo jamais seria encontrado. Saint- Exupéry, num de seus voos, esteve em Santa Catarina, onde se comenta até a existência de um filho brasileiro.Curioso, o piloto não assistiu a publicação de sua popular criação nem a repercussão mundial de seu sucesso.
Aqui, são poucos os que não possuem na biblioteca, e bem manuseado, o exemplar vertido por Dom Marcos Barbosa para a Agir Editora, detentora dos direitos. Em 2015 a obra cai em domínio público, surgindo reproduções, sempre com as mesmas aquarelas do autor, uma delas feita Livraria das Paulinas, em 2017, por Luciana Sandroni, premiada escritora de literatura infantil.
Contudo, para orgulho dos gaúchos descobriu-se em 1980 no acervo da Editora Melhoramentos uma pasta com a tradução feita por Mário Quintana, sabidamente quem trasladava as obras clássicas para a extinta Livraria do Globo. Estava “datilografada e revisada” pelo poeta e ora no comércio em artística edição divulgada durante a última Feira do Livro de Porto Alegre.
- Os homens esquecem essa verdade, disse a raposa. Mas tu não deves esquecê-la. És responsável, para sempre, pelo que domesticaste. És responsável pela tua rosa.

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