ANO: 25 | Nº: 6335

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
03/02/2018 Marcelo Teixeira (Opinião)

Zero

No meu tempo, o algarismo zero era praticamente de uso exclusivo da matemática. Eventualmente ele tinha uso metafórico, mas mesmo assim, sempre relacionado com as ciências exatas, como era o caso da expressão “zero à esquerda”.
O zero poderia significar algo ruim quando, por exemplo, aparecia no boletim do colégio. Porém poderia significar algo bom quando, por exemplo, qualificava um veículo: zero quilômetro.
Tinha o Recruta Zero, antigo personagem dos quadrinhos publicado, também, nas páginas da Zero Hora (Olha o zero aí de novo!). Na verdade o zero é um símbolo meio problemático, tanto que os romanos não consideravam sua existência. Basta relembrar dos algarismos romanos para constatar a inexistência do zero entre eles. Isso, de certa forma, procede, visto que o zero é nada, e nada não existe. Conceituar o “nada” é complicadíssimo e como zero é igual a nada, conceituar o zero não é nada fácil também. Todavia os matemáticos convencionaram considerar o zero para que suas contas fechassem e aí tiveram que criar algumas convenções pitorescas em relação a esse algarismo. Exemplo: todo número multiplicado ou dividido por zero, resulta em zero.
Se eu tenho nove laranjas e tenho que dividi-las entre três pessoas, cada uma ficará com três laranjas, certo? Mas se essas nove laranjas tiverem que ser divididas entre zero pessoas, qual a resposta? Ora, se zero é nada e, nesse caso, zero é ninguém, as nove laranjas não serão divididas e continuarão sendo nove laranjas indivisas. Porém, para os matemáticos, nove dividido por zero é igual a zero. Zero, então, para os matemáticos, é o buraco negro dos números. Zero é o “não-número”. Tudo isso parece indicar que a matemática não é uma ciência tão exata como dizem, pois, como estamos vendo, proporciona interessantes indagações filosóficas. É uma lástima não dispor de conhecimentos matemáticos e filosóficos que me permitam um aprofundamento nestas questões.
A popularização do uso “alternativo” do zero começou, pelo que lembro, em Nova Iorque quando o seu prefeito, Rudolph Giuliani, implantou o “Tolerância Zero” para combater a violência urbana. Mais tarde alguns teóricos da educação tiveram a infelicidade de implantar nas escolas fundamentais o “Reprovação Zero”, rebatizado mais tarde de “progressão continuada” ou, como chamo, o “holocausto intelectual”. Mais tarde ainda, o zero tomou conta do nosso dia a dia através dos produtos dietéticos, praticamente sepultando o “light” (que já vinha desgastado e desacreditado pelo seu uso indevido ou ambíguo) e substituindo o “diet”. Já no mercado financeiro, quem nunca ouviu falar do “juro zero”? Juro zero é sem juros! Tolerância zero é intolerância. Reprovação zero é aprovação automática, geral e irrestrita (ou “a apoteose da ignorância”).
Do jeito que vai a coisa, não é de duvidar que, no futuro, testemunhemos a avacalhação do zero. O uso redundante como ocorreu, por exemplo, numa antiga garrafa (de vidro) de água mineral que estampava “Diet por natureza”, ou numa embalagem de óleo vegetal que enfatizava “sem colesterol”. Nesta linha, e adaptada para o “zero”, poderíamos colocar nas embalagens dos produtos com bateria recarregável a inscrição “pilha zero”; nos relógios digitais: “zero ponteiro”; nos óculos de sombra: “zero grau”; na erva-mate pura folha: “zero pau”.
Muitos tratam o zero como se fosse algo concreto, algo que existisse, mas sabemos que ele não existe. Ele é o nada. E, para quem não existe, ele até que anda aparecendo muito. Assim, talvez esteja na hora de lançar uma campanha em defesa do zero para evitar seu uso indiscriminado e abusivo. Minha única dúvida é sobre o título dessa campanha: “Salve o zero!”, “Proteja o zero!”, Respeite o zero!”, “Deixa o zero descansar!” ou o enigmático, intrigante, indecifrável, instigante e redundante: “Zero Zero”?

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