ANO: 23 | Nº: 5865

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
08/02/2018 João L. Roschildt (Opinião)

No máximo um knockdown

Um nocaute. Foi dessa forma que a Revista Donna, da Zero Hora de 20-21/01/2018, classificou o sucesso de Pabllo Vittar. Dispensável mencionar que tal categorização foi motivada pela conquista do “Troféu Domingão – Melhores do Ano 2017 (categoria Música do Ano)”, com o hit “K.O.”. O jornal britânico The Guardian disse que a drag queen se transformou em símbolo de resistência contra uma minoria moral no país; alguns textos na grande mídia, indicam que apoiá-lo é um ato político; a própria artista reconhece que a sua personalidade afeminada tem caráter político. Pois bem, em sendo uma ação de cunho político, como isso afeta a liberdade?
Ben Shapiro, ao falar sobre os desafios da liberdade de expressar ideias nas universidades, disse que há uma grande ameaça articulada pelos guerreiros da justiça social disposta em três passos. O primeiro é afirmar que um argumento pode ser julgado como válido ou inválido exclusivamente em razão da etnia ou sexualidade da pessoa que profere a ideia. O segundo passo é apontar que aqueles que se opõem à ideologia de plantão, cometem violência verbal, ao passo que o último ponto é justificar a violência física em razão da suposta violência psicológica sofrida (uma simples visualização do canal “Mamãe, falei” do YouTube é a exemplificação disso). Reparem como movimentos coletivistas de invasões/ocupações e os partidos políticos adeptos desses grupos preenchem integralmente esses passos. Discorda de suas pautas? Fascista! Contrário ao aborto? Machista! Contrário a cotas? Racista! Contrário ao “same-sex marriage”? Homofóbico e preconceituoso!
Ora, mas qual a relação de tudo isso? O cantor e humorista cearense Falcão, famoso no gênero brega, comentou no Instagram que finalmente apareceu alguém que canta pior que ele. No dia seguinte, o vocalista da Banda Detonautas, Tico Santa Cruz, defendeu Vittar. Disse que as críticas não se direcionam ao fato de cantar mal ou desafinar, mas sim porque “o real problema é ter que suportar uma drag ocupando os espaços mais importantes da mídia nacional”. Para ele, a drag queen foi e é criticada pois faz parte de uma parcela da população que, infelizmente, “sempre foi perseguida e pelo visto continuará sendo”.
Mas a opinião de Falcão é acompanhada do maestro Tom Martins: por mais que seja evidente a ausência de afinação, técnica, harmonia e ritmo em Vittar, isso fará de seu crítico, “na loucura do neocoletivismo identitário em voga”, um homofóbico. Para Martins, o “mainstream” busca naturalizar a falta de qualidade para que se engrossem as fileiras de uma narrativa política que censure divergências contrárias à ideologia progressista. E ele está correto! Afinal, não foi Vittar e seus apoiadores midiáticos que acham sua atitude uma ação política?
Nos últimos dois meses, dois pais e uma mãe me relataram, em contextos absolutamente distintos, que, ao comentarem em família como as músicas de Vittar são péssimas, foram chamados de homofóbicos pelos seus filhos adolescentes. Cumpre-se, assim, a análise de Shapiro: criam-se figuras intocáveis, que, ao serem criticadas, agregam ao agente da crítica a pecha de preconceituoso. O progressismo está provocando constantes knockdowns na liberdade de expressar ideias. É questão de tempo para sofrer um nocaute ou aguentaremos cambaleantes como Rocky Balboa?

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