ANO: 24 | Nº: 6013

Fernando Risch

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Escritor
09/02/2018 Fernando Risch (Opinião)

Você não precisa ser um babaca no Carnaval

O filme The Purge (o título em português ficou “Uma noite de crime”, mas o significado literal é “O Expurgo”) conta uma história distópica em que uma vez por ano a população americana tem o direito, durante 12 horas, de fazer o que bem entender, sendo o crime legalizado. A maioria espera por aquele momento para cometer assassinatos e expurgar as ânsias que lhes atormentam o cotidiano. Na lógica do filme, aquelas 12 horas de carnificina fazem com que os outros 364 dias do ano sejam de criminalidade praticamente nula. Quem não quer participar, apenas se defende como pode durante aquelas horas.

O Carnaval é uma espécie de The Purge brasileiro para algumas pessoas. Sob o prisma da frustração e ansiedade, energizadas por um clima de suspenção de leis, há quem imagine que durante os cinco dias do Carnaval se pode fazer o que quiser, como quiser e não precisar assumir responsabilidade por tal atos. Basta alegar que é Carnaval e está bêbado e está tudo resolvido. A verdade é que se pode festejar no Carnaval, até um pouco acima do normal, mas não há nenhuma necessidade de ser um babaca.

Eu já fui um babaca. Não que eu tenha deixado de ser um babaca – é uma característica inerte -, mas é que já fui um escroto. Quando solteiro, Carnaval era a minha época de sair por aí e contabilizar com quantas mulheres eu fiquei. Havia disputa entre meus amigos e creio que nós não éramos os únicos. Se você pretende fazer isso também, só entenda o seu limite e aprenda a respeitar. De todas as coisas escrotas neste Carnaval que você, homem, que está tendo a paciência de ler essas linhas, não pode fazer, é ser um babaca com as mulheres.

Segundo dados de 2016, no Brasil, a cada 11 minutos uma mulher é violentada; número, diga-se apenas dos casos denunciados. Estima-se, de uma forma até otimista, que isso represente um terço dos verdadeiros casos. E, infelizmente, esse número não se zerará em 2018 e certamente saberemos de relatos de abuso sexual ocorridos neste Carnaval. É estatística e uma triste realidade. Abuso sexual não é apenas o sexo consumado e não-consensual. É a mão que apalpa sem autorização. É o beijo roubado de um ladrão desconhecido que se sentia no direito de beijar – mesmo não tendo tal direito.

É natural que o Carnaval desperte o libido de todos – homens e mulheres -, que as pessoas sejam mais sociáveis e liberais e que até se excedam no álcool, mas nada disso – e, principalmente, a questão alcoólica – é uma desculpa para o abuso, para passar do limite. Entende-se que as pessoas tenham suas vontades, mas elas jamais ficarão à frente da falta da vontade. Um “não” não é um sinal verde para seguir tentando, numa espécie de mensagem subliminar que as mulheres utilizam para avisar que apenas estão se fazendo de difícil. É não. E não é não.

O Carnaval é a maior festa popular do mundo, não um expurgo desgovernado de caos. Divirta-se e não seja um escroto. Respeite as pessoas – principalmente as mulheres. As leis não estão suspensas no Carnaval, apenas o caráter de alguns está exposto fora das amarras sociais do dia-a-dia. Você não precisa ser um babaca.

 

 

 

 

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