ANO: 23 | Nº: 5863

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
10/02/2018 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Rivera

O Uruguai venera José Gervásio Artigas; os irmãos João Antônio e Manuel Lavalleja, ambos integrantes dos Trinta e Três Orientais; Manuel Oribe; e Fructuoso Rivera, todos seus grandes heróis.
Domingo Faustino Sarmiento, clássico autor de Facundo, diz que o último fez guerra às autoridades, como contrabandista; depois aos contrabandistas, como empregado do rei e patriota; aos patriotas, mais tarde como montonero; aos argentinos, como chefe brasileiro; aos brasileiros, como general argentino; a Lavalleja, como presidente; ao presidente Oribe, como chefe proscrito; a Rosas, aliado a Oribe, como general oriental.
Rivera combateu em campos uruguaios contra os portugueses, mas vencido por Lécor incorpora-se às tropas lusitanas como coronel e comandante; embora líder “colorado”, na revolta da Independência, une-se a seu compadre Lavalleja no exército dos 33; é derrotado por Bento Ribeiro, mas vence Mena Barreto, Gomes Jardim e Bento Gonçalves; fica inimigo de Lavalleja; é escolhido como 1º Presidente Constitucional do Uruguai e saindo do cargo enfrenta Manuel Oribe, que fora seu ministro, chefiando um movimento pró-Argentina; exila-se no Brasil, mas auxiliado por Bento Ribeiro volta ao Uruguai onde reorganiza o Exército e derrota Oribe, voltando à Presidência, ocasião em que muito ajuda aos farroupilhas (1834); aliado a Rosas, Oribe retorna ao poder e vence Rivera no Arroio Grande (1842); derrotado, refugia-se novamente no Brasil e passa a colaborar com os farrapos, sendo rendido pelo Duque de Caxias; tenta várias vezes voltar à sua pátria, mas é preso e outra vez é exilado para o Brasil (1847); finda Guerra Grande, é escolhido e chamado pelos compatriotas para assumir a presidência com Lavalleja e Venâncio Flores. Quando regressa ao Uruguai detém-se em Jaguarão; doente, corresponde-se com sua mulher, que morava em Montevidéu, a quem muito desejava rever; todavia, mesmo sem condições de viajar prossegue a jornada, vindo a falecer já nos arredores de Melo em 13 de janeiro de 1854.
O médico que assiste sua agonia decide embalsamar o corpo, sendo encomendado esquife de lata que é colocado dentro de outro, de madeira. Depois de gasto o pequeno estoque de álcool que havia na vila decide-se misturar cachaça para completar o processo de aromatização do cadáver.
O caixão é conduzido por antigos soldados trajados de preto, montados em cavalos pretos, companheiros de antigas refregas; que, para homenagear um líder e amigo, muitos deles bebem goles do líquido do ataúde por acreditar que assim se fica mais valente, episódio confirmado pelo historiador Oscar Padrón Favre como sendo da” tradição uruguaia”.
Alerta o escritor Euclides Torres que um dos projetos de Rivera era criar um Grande Uruguai, integrado pelo Estado Oriental, as Províncias de Entre Rios e Corrientes e mais o Rio Grande do Sul, intenção vista como perigosa tanto pelo Império Brasileiro como pela Confederação Argentina que também reivindicava o Uruguai como parte do Vice- Reinado da Prata, o que muitos caudilhos platinos continuaram a sonhar.
A Cisplatina, hoje o atual território uruguaio, pertenceu ao Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves; e depois ao Império do Brasil, que a manteve para defesa das províncias do Sul até 1825, quando o solo de Artigas conquista a Independência.

Fontes: 1. Torres, Euclides. Bento Manoel Ribeiro, o Caudilho Maldito. Porto Alegre: Edigal, 201; 2. H.D. Ensayo de Historia Patria. Montevidéu: Barreiro y Ramos, 1913. 3. Wikipédia.

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