ANO: 24 | Nº: 6080

Luiz Fernando Mainardi

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Deputado Estadual
14/02/2018 Luiz Fernando Mainardi (Cidade)

Sartori: a solidão das teses injustas

Em uma madrugada da semana passada, a base governista superou a obstrução da oposição e aprovou o projeto do Executivo autorizando o Estado a aderir ao Regime de Recuperação Fiscal (RRF) do governo federal. Tal Regime é um programa que estabelece uma verdadeira intervenção da União na gestão pública estadual. São tantas as condicionantes e a necessidade de contrapartidas, que, caso seja assinado, nem precisaremos mais de governador no Rio Grande do Sul. Mais ou menos como era na época dos presidentes da província, durante o Império. Como Sartori está há mais de três anos sem governar, para ele não deve fazer a menor diferença.

Mas faz para o povo gaúcho e seus verdadeiros representantes. Já expus em outros artigos as razões de nossa oposição ao RRF, mas não custa lembrar que a exigência de privatizações em áreas como energia, saneamento e finanças gerará uma nova batalha política no RS, já que não pretendemos deixar Sartori fazer o serviço que interessa aos grandes grupos capitalistas nacionais e internacionais, de olho em nossas estatais. Veja, se nossas empresas públicas fossem tão ineficientes e desnecessárias, porque interessam tanto aos investidores internacionais?

Bem, mas o fato que chama a atenção é que na mesma semana em que os deputados que apoiam o governo aprovaram o RRF na Assembleia, o PP declarou que se retirará do Executivo até o dia 15 de março. Não é o primeiro partido que se retira da base de Sartori e, aparentemente, não será o último. Ao final de 2017, os tucanos se retiraram, disparando contra o que consideram um governo ineficiente e o PSB engalfinha-se internamente para decidir o que mais vale a pena.

Evidencia-se, assim, um paradoxo na política gaúcha. Um governo aprova um projeto que compromete profundamente o futuro do Rio Grande do Sul, mas não consegue gerar motivos para estancar a sangria de sua base parlamentar. É como se o PP e o PSDB tenham deixado para Sartori o trabalho sujo – a venda das estatais, o arrocho sobre o funcionalismo, que acabará o governo do PMDB com um poder de compra 25% menor, o corte dos investimentos nos serviços públicos – e, agora, busquem uma separação amigável, de forma que não precisem em suas campanhas eleitorais assumirem o legado trágico da gestão do atual governador, nem serem acusados de traidores.

Tudo, entretanto, para, caso sejam vencedores no pleito de outubro, retomar a agenda privatizante e de retirada de direitos dos gaúchos que vem sendo desenvolvida com ferocidade pelo conluio entre os governos estadual e federal. Inverte-se, portanto, a lógica que Sartori imaginava gerir. Ao invés de PSDB e PP servirem aos projetos de Sartori, foi Sartori, na verdade, que serviu aos projetos da direita gaúcha.

Sartori inicia o último ano de sua gestão com quase nenhuma razão para comemorar. A vitória que obteve no parlamento, na última semana, pode ser comparada à vitória do Rei Macedônio Pirro, que séculos atrás disse a um de seus generais: “Com mais uma vitória dessas, estamos definitivamente perdidos”. A verdade é que a “vitória de pirro” de Sartori tornou-o mais isolado política e eleitoralmente, praticamente fora do páreo para a eleição, quando, aparentemente, ninguém estará lá para defender o que foi feito e nem explicar o que não foi nestes últimos anos.

2018 será um ano melancólico para Sartori. Um destino justo para um governo que vangloria-se de defender a injustiça. 

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