ANO: 25 | Nº: 6378

Fernando Risch

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Escritor
16/02/2018 Fernando Risch (Opinião)

Ajustem seus relógios para o soco do cotidiano

O primeiro sinal que a vida nos dará uma surra é quando o Carnaval acaba; o segundo é quando o horário de verão se vai; o terceiro será um dia de frio atípico para quem estava habituado a suar. "Que estranho", diremos. "Ontem estava tão quente". Então, nada será como antes.

A respiração será cônjuge do vapor e o cheiro do ar virá com tons amadeirados e de cinzas apagadas; o sol vai se pôr pelas cinco e meia e nem os espíritos mais efusivos conseguirão suportar tamanha melancolia; o regozijo morreu, num limiar de frente fria.

Meia-noite, que antes era algo que acontecia cordialmente entre duas da tarde e três da manhã, agora será a trincheira divisória de uma batalha invencível contra o fim do dia. As manhãs serão banhadas de sono; não por cansaço, mas por um instinto hibernativo herdado de ancestrais longínquos, na bifurcação entre o homo erectus e o urso pardo.

Teremos coisas boas, é claro: o vinho, o fogo, a bergamota. Mas tudo para quebrar essa rotina de trevas e frio e trevas e mais frio e, é claro, trevas; e de vapor na respiração; e de um nariz vermelho.

Está acontecendo. Etapa por etapa. Ajustem seus relógios após a meia-noite, a realidade voltará ao normal. A vida chama para a rotina, o cataclísmico cotidiano de frio e de trabalho, não necessariamente nessa ordem. Feliz ano novo e quando o soco vier, estejam prontos, vestindo um blusãozinho.

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