ANO: 25 | Nº: 6282

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
17/02/2018 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

João Kluwe, um bajeense ilustre

A casa de dois andares na rua Félix da Cunha, no bairro Moinhos de Vento, chamava atenção por mostrar um imenso pátio, com um orquidário, uma quadra de tênis e uma piscina, a segunda construída em Porto Alegre. Ali morava o luterano João Kluwe e sua família. Bajeense (1888), oriundo de linhagem de 13 irmãos formaria com A.J. Renner e João Wallig um dos maiores empresários de sua época.
João fora caixeiro-viajante da Tannhauser, vendendo tecidos e camisa, mas tornou-se conhecido e rico depois de fundar a Casa Kluwe, em 1918, na rua Voluntária da Pátria, esquina Coronel Vicente, defronte ao prédio que seria dos Irmãos Kalil daqui. A loja era especializada em artigos importados e utensílios para o lar, admirados por sua sofisticação, como tapetes, lustres, móveis, louças e cortinas, visita obrigatória para quem desejasse decorar com requinte a moradia da capital ou do interior. Kluwe era ainda admirado por seu cavalheirismo e teve enorme sucesso até a década de sessenta.
Todavia, não o satisfez a somente atividade de lojista tornando-se um dos maiores industrialistas quando decide investir nas áreas de cutelaria e metalurgia através da empresa Kluwe, Müller e Cia, em 1932, especializada em produtos de louças, artefatos de ferro, estanho e alumínio; e logo a Zivi, Kluwe, Müller e Cia, fabricante de tesouras. Aqui cria a marca Hércules, que será primeira linha de talheres de aço inoxidável no solo latino. Dez anos depois, afastado da Zivi, continua sua ação empreendedora e com Herbert Müller, Oscar Purper e Guilherme Wallig, além de outros, estabelece Forjas Taurus, nome em homenagem à mãe dele dona Taurina Kluwe, mais tarde a maior fabricante de revólveres da América Latina. João casou com Irma Wallig, irmã dos fabricantes dos fogões Wallig e teve duas filhas, Elly e Ilka. Conta-se que quando a primogênita completou 15 anos, Kluwe teve a ousadia, para a época, em importar um Ford conversível como presente, insistindo para que a filha guiasse o veículo, o que a tornou, possivelmente, a primeira adolescente a ter uma "barata" nas ruas dos Moinhos de Vento.
Adepto da alimentação sadia e dos esportes, como o tênis, e interessado pelo futebol nascente, em 1909, junto com os irmãos Lothário e Guilherme, ergue o Grêmio Football 7 de Setembro, de pouca duração.
O bajeense, nos anos 20, construiu uma das primeiras casas na praia de Torres, mas também tirava férias em Desterro Blauth, área rural de Farroupilha, onde sua filha Elly conheceu o marido Herbert Haupt, que foi diretor-presidente da Taurus, vendida a um grupo americano em 1970, mas readquirida pelo genro sete anos depois.
Homem enérgico, mas sensível, João reunia a família após o jantar para Elly cantar músicas populares acompanhadas ao piano por Irma, que muito apreciava dialogar em alemão com os parentes e amigos.
Como referido, cultuava orquídeas, tendo por cruzamento elaborado duas novas espécies, Frau Kluwe e Irma Kluwe. Embora industrialista vencedor, como na Zivi-Hércules, João Kluwe ficou mais conhecido como comerciante de destaque e liderança.
João morreu em 1959. Sua filha Elly reside em Desvio Blauth, com os netos; Ilka, viúva de Gedeão Silveira, pecuarista e médico do Hospital do Pronto Socorro, moradora dos Moinhos de Ventos, também já faleceu.
João era o irmão mais velho de Carlos Antônio Kluwe (1890), ambos nascidos no Passo do Valente e filhos de João Henrique e Taurina Kluwe. O nosso "Dr. Kluwe", médico e prefeito de 1949-51, nome do Colégio Estadual e de rua na Vila Kennedy, antes de se diplomar foi craque do S.C. Internacional, onde ficou conhecido como a "Majestade colorada", por seu talento futebolístico e porte de 1,90 m. É um dos raros jogadores perpetuados no Museu daquela entidade. Atleta vitorioso em 1913-15, já médico, clinicando e longe dos gramados, retorna atendendo ao abaixo-assinado de dezenas de senhoritas para atuar e vencer seu primeiro Grenal, em 1919, marcando um dos golos. No ano seguinte, repetiria façanha e novamente seria campeão. João e Carlos Antônio foram dois ilustres bajeenses.
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Fontes: 1. Bissón, Carlos Augusto. Moinhos de Vento. História de um bairro de Porto Alegre. Porto Alegre: Editora da Cidade, 2008; 2.. Giorgis, JCT. Carlos Kluwe, a majestade colorada. Minuano, edição de 23 de agosto de 2010. 3. Santos, Carlos Lopes dos Santos. Na sombra dos Eucaliptos. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1975.

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