ANO: 25 | Nº: 6353

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
22/02/2018 João L. Roschildt (Opinião)

Eu quicarei, tu quicarás, ele quicará... nós (ainda) quicaremos!

Em 1967, no livro “A invasão vertical dos bárbaros”, Mário Ferreira dos Santos falou sobre a existência de bárbaros intramuros destruindo os fundamentos da cultura. Esses seriam sujeitos que assumem aspectos civilizados, estando plenamente integrados na sociedade, mas que teriam como objetivo central romper com o que está estabelecido. Com isso, valores como justiça, moderação, prudência, elevação da mulher e da criança, liberdade e igualdade, traços significativos e transcendentes do nosso grande ciclo cultural, estariam propensos a sucumbir diante das práticas da barbárie. Se é verdade o que disse o filósofo, há mais de 50 anos, não há época mais copiosa do que a nossa.

Anitta, Jojo Todynho, Mc Loma “et caterva” podem ser expressões do que foi dito? Ao acompanhar somente as letras das músicas que o funk produz, fica difícil desdizer que esse gênero tenha como objetivo atender a alguns instintos animais da forma mais desmesurada possível. Termos como “descer”, “subir”, “sentar” e “quicar” fazem parte do repertório. Palavras que, inseridas em um contexto hiperssexualizado, contribuem para a degradação da dignidade humana. Isso se torna ainda mais preocupante no caso de Mc Loma que, com singelos 15 anos de idade, estourou o hit “Envolvimento”. Adivinhem quais são as palavras de ordem dessa música e qual o contexto que as jovens (não se esqueça que as Gêmeas Lacração fazem parte do pacote musical) remetem? Todavia, como diz a celebridade Jojo Todynho ao criticar os seus críticos, “Ei, psiu? [...] e aí já cuidou da sua vida hoje? É você mesmo [...] donos da moral e da ética. Sem talento? Sem cultura? Toma vergonha na cara de vocês! Vai ter personalidade, amor. Entendeu?”. Creio que boa parte da sociedade careça de conhecimento para entender tamanho talento e cultura...

Mas lembrem-se que, com a barbárie intramuros, há a necessidade de algumas chancelas para completar sua engenharia disruptiva. É nesse momento que surgem as instituições e seus asseclas para completar o ciclo. No início do mês de fevereiro, Anitta foi convidada pela “Brazil Conference” para palestrar em Harvard/MIT. Conforme os organizadores (estudantes brasileiros), em seu site, o evento tem a “missão de encontrar soluções inovadoras para o futuro do nosso país”. E foram ainda mais diretos quanto à cantora em uma nota pública: “Como um evento que crê na pluralidade do Brasil, não podemos cometer a falha de não abordar também a cultura como elemento central de identidade do povo brasileiro”; seguido de encômios quanto a sua história de sucesso e superação servir de exemplo para muitos brasileiros. Jojo Todynho não poderia estar mais correta de acordo com os ilustres estudantes brasileiros de Harvard/MIT.

Não à toa, existe o apontamento do professor Jordan Peterson sobre a falência intelectual das universidades dos EUA. O psicólogo foi bastante direto, em uma entrevista, quanto ao tema: com exceção das áreas vinculadas às ciências duras, as “universidades fazem mais mal do que bem. [...] ensinando mentiras a estudantes universitários e passando a mão em sua cabeça”. Crítica que poderia ser perfeitamente estendida ao ambiente acadêmico ocidental. A não ser que seja normal e correto chamar elogiosamente de cultura (e tudo o que dela deriva) o reino da lacração dentro de uma universidade.

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