ANO: 25 | Nº: 6278

Fernando Risch

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Escritor
23/02/2018 Fernando Risch (Opinião)

Não finjam que está tudo bem

Estou há dias pensando na intervenção federal na segurança do Rio de Janeiro e, desde então, me contradisse em pensamentos uma centena de vezes. Avalio cada lado e cada ponto, para tentar formatar uma ideia do que realmente está acontecendo e o que poderá acontecer em sequência. Cheguei ao meu limite.

Primeiro, há de se falar que a questão não é ser contra ou a favor da intervenção, mas questionar a maneira como ela é feita. Sofrendo com o caos na segurança, a inserção de militares no Rio de Janeiro parece plausível, mesmo tendo estados com piores indicadores na questão, necessitando da mesma ou mais ajuda. Isso é um ponto.

O que se vê, de fato, é um movimento ultramidiático para que alguém tire proveito político. O artigo 60 da Constituição impede que durante uma intervenção federal qualquer emenda constitucional seja votada. Isso bloqueia os avanços da Reforma da Previdência, a menina dos olhos da gestão Temer. Mas também impede que a emenda que votaria o fim do foro privilegiado fosse votada, saindo de pauta do Congresso, salvando o pescoço de dois terços de parlamentares, de ministros e do próprio presidente. Nada é por acaso, ainda mais em ano de eleição.

Além disso, as ações da intervenção parecem não ter planejamento claro, sem transparência. Parece que os militares subirão o morro e depois pensarão o que fazer. Se confirmando a regra, a guerra às drogas não terá efetividade, trazendo casualidades na população inocente da favela. Será o clássico "enxugar gelo". E sem um levantamento técnico de dados do antes e depois da intervenção, não se saberá o que precisa mudar, o que mudou e o que fazer em seguida. Quando os militares deixarem a segurança do Rio, tudo voltará ao normal.

Para facilitar os trabalhos, o Ministério da Defesa ainda consultou o Judiciário para fazer mandatos de busca e apreensão coletivos no Rio de Janeiro, uma atrocidade inconstitucional e imoral, autorizando os militares a entrar e revistar onde e quem quisessem numa área específica. E todos sabem quais áreas seriam afetadas. Os apartamentos no Leblon é que não seriam.

O decreto de Temer não apenas traz o debate sobre questões de atuação dos militares nas favelas, ele abriu uma brecha há muito enclausurada, dando voz a quem quiser falar. E o que se ouviu não foi nada positivo. O comandante do Exército, o general Villas Boas, um homem que até então arrefecia os mais incautos e agressivos do Exército, disse que os militares precisam atuar com liberdade, sem a ameaça de surgir uma nova Comissão da Verdade.

Apenas o fato de o comandante do Exército citar a Comissão da Verdade, algo que deveria expor as entranhas da ditadura militar e que acabou por não revelar nem 10% dos números e fatos dos 21 anos de regime, já é perigoso. É como se ele admitisse que entraríamos num novo estado de exceção e que precisa de carta branca pra agir, sem nenhuma transparência e nenhuma conseqüência, caso "erros" sejam cometidos. E sabemos qual será a comunidade afetada nesta possível ação inconsequente. A do Leblon é que não é.

A ruptura política no impeachment de Dilma Rousseff criou um ambiente propício para um espectador distante e despretensioso. Enquanto petistas e tucanos se digladiavam, alguém olhava de fora. E quando todos - esquerda e direita moderada - se viraram contra Temer, o espectador virou solução. O atual presidente tem aprovação quase nula da população e só consegue se alinhar politicamente com aqueles que mantêm os conchavos para se salvar da cadeia e para doar o que puderem do país às empresas que os financiaram. E quando ninguém em uma sociedade respeita um governo, há um problema.

Mais que isso, não existe um brasileiro que não se sinta inseguro. E essa crise traz para muitos cidadãos a vontade de romper com o status quo de forma extremada para tentar resolver o problema com soluções simplistas e agressivas. Parece que os erros na história não deveriam se repetir, mas o que se vê é a cama posta para que alguém se deite.

Não vou fingir que está tudo bem, esse é o primeiro passo para assimilar algo inaceitável. Pode ser que eu esteja paranóico ou pode ser que não. Lembremos: nós não acordamos um dia e nos deparamos com um estado de exceção. Ele vem aos poucos, passo a passo, nos fazendo aceitar pequenas ações como sendo inofensivas e necessárias. Quando percebermos que vivemos em uma ditadura, será tarde demais e não haverá nada que possamos fazer para mudar.

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