ANO: 24 | Nº: 6109

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
24/02/2018 Marcelo Teixeira (Opinião)

Fake news

"Fake News" é um nome novo para uma prática velha, assim como bullying e outros estrangeirismos e neologismos que invadem o nosso vocabulário tupiniquim ultradinâmico. Talvez só não seja tão velho quanto andar pra frente, pois a mentira deve ter quase a mesma idade da fala e a "fake news" ou notícia falsa, nada mais é que uma mentira que ganha uma dimensão maior no que diz respeito ao público-alvo.
No final dos anos 90, Luís Fernando Veríssimo já manifestava preocupação com a manipulação da informação e escreveu um artigo sobre um suposto apartheid social decorrente do avanço da TV a cabo que permitiria somente à elite do país o acesso a diferentes e múltiplos canais como fontes de informação e cultura, enquanto a grande maioria da população receberia somente ao suspeitíssimo conteúdo dos canais de TV abertos que poderiam influenciar a opinião pública, usando-a como massa de manobra para diferentes fins.
O tempo passou e a menos que eu esteja enganado, essa profecia apocalíptica não se confirmou por culpa da internet. Na época dessa profecia, a rede mundial de computadores ainda era incipiente com o jurássico acesso discado, mas de lá para cá, com a inclusão digital e, mais recentemente, o avanço vertiginoso dos aparelhos smart (phones e TVs), a rede mundial de computadores assumiu a posição de principal meio de comunicação e fonte de informação, coisa provavelmente impensável lá na distante década de noventa.
A popularização das redes sociais amplificou ainda mais tudo isso, trazendo, como efeito positivo, a diversificação das fontes, a interação instantânea entre os usuários e, assim, uma democratização da informação, seja no sentido de produção e transmissão de conteúdo, seja no sentido de acesso a inúmeras e simultâneas fontes de conteúdo. Tanta facilidade, descompromisso e descontrole, provocaram efeitos colaterais indesejados e, entre eles, se destacam as famigeradas "fake news".
A expressão ganhou notoriedade principalmente após a polêmica campanha eleitoral de Donald Trump, nos EUA e, por aqui, passou a preocupar as autoridades em função deste ano ser um ano eleitoral, exatamente neste momento em que se percebe e se debate os riscos e perigos das notícias falsas.
Se não fossem as "fake news" não teria havido a guerra do EUA contra o Iraque, em 2003, e, provavelmente, Dilma não teria sido reeleita em 2014. Isso evidencia que o assunto é sério e merece alguma preocupação por partes das autoridades públicas, todavia ele já é conhecido a tempo suficiente para não enganar a maioria, ou seja, precisa ser muito inocente para confiar cegamente em tudo que circula na internet. Se fosse um fenômeno mais recente, talvez o risco fosse maior, mas hoje poucos são os ingênuos capazes de acreditar nos absurdos que são divulgados na rede mundial de computadores.
Aliás, como diz a sabedoria popular, gato escaldado tem medo de água fria. Já estamos tão curtidos pelas "fake news" que é mais provável não acreditarmos em alguma notícia verdadeira com aparência de absurda, do que acreditarmos em alguma notícia falsa com aparência de verdadeira.
E mais, desde muito antes de tudo isso, mesmo empresas tradicionais, poderosas, de renome nacional e até internacional já se viram envolvidas com "fake news", em escândalos que abalaram seriamente o mais importante patrimônio das agências de notícias. Lembro como se fosse hoje da notícia falsa publicada pela Veja sobre o deputado gaúcho Ibsen Pinheiro e, também, do episódio da Escola Base em São Paulo. Isso prova que a profissionalização dos jornalistas e a formalização e regulamentação das agências não são, por si, garantia de que elas não divulgarão notícias falsas.
Concluo, então, afirmando que assim como o corrupto, o traficante e o puxa-saco, a "fake news" é só metade da equação. Terrível só contra os incautos!

 

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