ANO: 25 | Nº: 6354
26/02/2018 Cidade

Cenário de sertão em plena campanha gaúcha

Foto: Antônio Rocha

Eni mostra açude outrora abundante, totalmente seco
Eni mostra açude outrora abundante, totalmente seco

Todos os dias, às 6h da manhã, Carmem Valesca Vasconcellos Prado Lima, 58 anos, e o marido, Humberto Vaz Lima, 64 anos, levantam da cama para a primeira atividade do dia: ordenhar as nove vacas, que são a principal fonte de sustento da família. Mas nos últimos dois meses o trabalho tem se tornado cada vez mais árduo e desesperançado. Com a estiagem que assola a região da Campanha, a produção de leite caiu vertiginosamente, trazendo receio e prejuízo para o casal. Esta é apenas uma das histórias das centenas de famílias de pequenos agricultores afetados pela seca.
A região já acumula quase R$ 100 milhões em prejuízos, segundo informações do relatório encaminhado pela Defesa Civil para homologação do decreto de situação de emergência. Em Bagé, a perda ultrapassa R$ 51,3 milhões. De acordo com a Emater/Ascar, o segmento da agricultura mais afetado foi o setor leiteiro, que teve perda de 40%. E é nesse índice que a família Lima está inserida. O casal, que mora há cerca de 20 quilômetros da cidade, viu a produção cair para menos da metade. Enquanto em 2017 as nove vacas produziam cerca de 20 litros diários cada uma, no período de pico, agora a produção é menor do que sete litros por vaca, diariamente.
Sem a pastagem necessária para alimentação dos animais, a produção caiu não apenas em volume, mas também em qualidade. "Já tivemos que jogar mais de 500 litros para os animais beberem porque os testes de qualidade apontaram que estava muito fraco", lamenta Humberto.
Ele relata que durante as preparações para o verão chegou a plantar três vezes as pastagens que serviriam para a alimentação dos animais. Mas nas três vezes não teve sucesso. "Não adianta plantar semente, porque o sol está muito forte e torra tudo. E sem chuva não nasce nada mesmo", explica.
Os dois são produtores há nove anos e esta é a primeira vez que enfrentam uma estiagem tão feroz. Eles explicam que para manter os animais vivos contam com a solidariedade dos vizinhos. "O vizinho tem plantio de arroz e nos deu licença de cortar de foice o capim-arroz que fica na volta da lavoura. Aí trazemos para casa e damos para os animais. Só por isso que ainda estão vivos", conta Lima.
Carmem comenta que a rotina foi totalmente alterada com a estiagem. Isso porque com a falta de comida para as vacas, os dois procuram alimentação na estrada. "É muito cansativo, porque uma coisa é deixar a vaca na pastagem, se alimentando. Outra é tocar elas pela estrada para acharem alguma coisa para comer, debaixo do sol forte", observa a produtora.

Em busca de alimentação e água para o rebanho

Além da falta de alimentação, a situação é agravada pela falta de água para os animais beberem. O açude que abastecia a casa e os cochos dos animais está secando cada vez mais rápido. A propriedade, cedida em comodato, possui um poço com nove metros de profundidade, mas sem uma gota d'água. "Outra pessoa que morou aqui antes de nós atulhou o poço com lixo, não tem nem como encher. Já chamamos algumas pessoas aqui para limpar lá embaixo, mas dizem que é perigoso porque é estreito e profundo demais. Se pudéssemos, captávamos água das calhas para armazenar aqui", diz Carmem.
Para diminuir o consumo direto da fonte da propriedade, Lima vem ao centro da cidade ao menos uma vez por semana, onde compra cerca de 160 litros de água, que é utilizada para alimentação e bebida da família. Para o resto, banho e lida da casa, é a água do açude. "Só temos água para mais uns vinte dias. Depois realmente não sei o que vamos fazer. Já estamos racionando a água, mas os animais sentem sede, não podemos negar água, porque já está faltando comida", conta Lima, entristecido.

Situação financeira minguada

E a seca também tem efeitos devastadores na economia familiar. Enquanto o faturamento da família em dias normais de produção girava em torno de R$ 3,6 mil com a venda diária do leite, a 80 centavos por litro, com a seca os produtores viram a renda cair vertiginosamente, primeiro pela metade e, em dezembro, para menos do que isso. "No cheque de dezembro recebemos R$ 420 pela produção do mês", lamenta Carmem.
Com parte da renda familiar revertida para pagamento do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), pela compra de três vacas jerseys, a família, agora, lamenta que não terá o valor necessário para pagar a última parcela do financiamento. "Sempre pagamos em dia, às vezes pagavámos adiantado. Mas agora não sei como vamos fazer porque realmente não temos essa quantia", se preocupa Carmem.
Por enquanto, a renda da família tem se mantido com o auxílio dos dotes culinários de Carmem, que todas as terças-feiras vem a Bagé vender pão caseiro, doces e mel para funcionários de escolas e postos de saúde. "É isso que tem ajudado a manter a renda do di a dia. As pessoas já me conhecem porque eu vendo pão há muitos anos e sempre compram", conta.
Frente às adversidades que vem enfrentando, a família cogita desistir do setor. "Se surgir alguma proposta, nem precisa ser uma proposta muito grande, vendemos o tambo completo, com os equipamentos e os animais", garante Lima.
"Chega a dar uma dor de ver o que está acontecendo. É triste acordar e ir ordenhar as vacas sabendo que a produção vai ser muito baixa. Produtor na seca não tem descanso. A vida de quem sobrevive da agricultura familiar é muito difícil porque somos nós que sustentamos a mesa dos brasileiros, são as Carmens e os Humbertos da vida, não são as grandes empresas", finaliza a produtora.

Contexto agravado nas coxilhas fronteiriças

Solo seco e rachado são imagens que há muitos anos nos remetem ao sertão nordestino, onde a escassez de chuvas já é histórica. Mas estas imagens também foram captadas na campanha gaúcha, mais exatamente em uma pequena chácara de 10 hectares na Serrilhada, local de intersecção entre Brasil e Uruguai. Com problemas históricos de abastecimento, já que a parte brasileira da fronteira não possui água encanada, enquanto os uruguaios contam com torneiras com água abundante e tratada, a situação é agravada ainda mais pela escassez de chuvas.
É lá, no alto de uma coxilha, que mora Eni Leite Alves, 61 anos. A primeira vez que a reportagem a enxergou, caminhava sozinha ao longo da estrada, protegida por um chapéu de palha de abas largas e com um bastão de caminhada para dar segurança aos passos pela trilha pedregosa. Abordada e questionada sobre a situação da estiagem, começa a falar em um português marcado pela influência do acento espanhol falado no país vizinho.
Em sua casa, ela mostra uma grande caixa d´água de dois mil litros que, sem serventia, com a ausência de rede encanada, é utilizada para captar água da chuva e estocar quando o caminhão-pipa da Prefeitura de Bagé aparece para amenizar a situação. No sábado à tarde, a caixa contava com menos de um terço de armazenamento. "Agora (sábado) já faz mais de mês que eles (caminhão-pipa) não vêm aqui", diz.
Ela vive da produção de leite e da venda de novilhos. Mas nos últimos dois meses viu seu pequeno rebanho minguar. "Sem comida e água abundante, os animais ficam muito fracos. Os mais novinhos são os que menos resistem. Até os carrapatos atacam mais e como eles já estão mais sensíveis, não conseguem melhorar", explica. Os porcos da propriedade também não existem mais, já que Eni não tinha alimentação suficiente para oferecer aos animais. "Acabei carneando os porcos e fiquei com a carne para consumo próprio e para a família da minha filha, que mora em Bagé", conta.

O campo do pobre sempre foi a estrada

A produtora, que mora sozinha e é responsável pela alimentação, ordenha e cuida do gado. Com a escassez de pastagem e de locais para beber, ela sai à beira da estrada, tocando o rebanho até um local onde possam matar a fome e sede. Entretanto, até mesmo essa alternativa pode ser inviabilizada. "A intendência uruguaia proibiu animais na beira da estrada. Mas se eu não fizer isso, os animais vão morrer. O campo do pobre sempre foi a estrada. Isso que eu só consigo sair uma vez ao dia com eles, não tenho condições de levar o gado três vezes por dia para procurar comida. Eu vou a pé porque se usar o cavalo ele vai comer e beber mais, mas já estou até com varizes de caminhar tanto",diz.
Até o final do ano passado, a propriedade contava com dois pequenos açudes, que abasteciam a casa e também a sede dos animais. Os dois estão totalmente secos desde a primeira quinzena de janeiro. "Já pensei em chamar um trator com a "mão boba" para raspar o barro dali e deixar preparado, caso chova. Mas não tenho dinheiro. É mais de R$ 120 a hora de um trator", relata.
Esperando ansiosa por uma chuva torrencial para melhorar a pastagem e encher o reservatório, ela destaca: "Está muito difícil, tão ruim quanto a seca de 1989", conclui.

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