ANO: 25 | Nº: 6259

Dilce Helena Alves Aguzzi

dilcehelenapsicologa@gmail.com
Psicóloga
27/02/2018 Dilce Helena Alves Aguzzi (Opinião)

Quando o mertiolate parou de arder

“Essa geração começou a dar errado quando o mertiolate parou de arder.”
Outro dia li esta provocação e não pude deixar de pensar em seu sentido verdadeiro.
Sim, algo começou a dar errado quando começamos a acreditar que a dor não educa. Pior ainda quando iniciamos a acreditar que uma criança não suporta a nenhum desconforto.
Sim, começamos a perder algo de muito importante na educação quando decidimos que faríamos o que fosse necessário para que nada doesse em nossos filhos. Nada.
Sim, algo se perdeu quando decidimos que faríamos tudo muito diferente do que foi feito conosco, negando assim nossa criação e qualquer possibilidade de acerto que pudesse ser passado adiante.
“Pais escudo”. Assim denomino esse exército de pais, mães, avós e etecéteras que estão dispostos a tudo desde que seu descendente não sinta dor alguma, seja ela emocional ou física. Ignorando profundamente o princípio do antídoto, o qual determina que pequenas doses de veneno, na verdade, funcionam como poderoso remédio e contraveneno; não percebem que barram o surgimento da fibra, da força emocional e da capacidade de superação, também conhecida como resiliência. O princípio do antídoto, se respeitado, forja personalidades estruturadas, pessoas com maior capacidade de enfrentamento das adversidades da vida sem entrar em pânico ante o primeiro obstáculo ou imprevisto.
Na época em que o mertiolate ardia ouvíamos: “Quando casar passa!” Por mais que não fizesse sentido ouvir aquilo ajudava a compreender algumas coisas. Primeiro, quem dizia isso diante de um joelho sangrando não estava muito preocupado, o que significava que íamos sobreviver, portanto não era grave. Segundo, podia até demorar a passar, mas passaria. Então era só curtir o ardido, chorar, aprender a assoprar e aguentar até passar. E passava mesmo.
O que se aprendia com isso?
Muita coisa entre confiar, aguentar e criar uma forma de suportar, além de saber avaliar o que é grave e o que é superficial. Ou seja, provando gradualmente doses pequenas de machucados que cicatrizavam nos descobríamos mais fortes e prontos para maiores desafios, até nos cuidarmos sozinhos!
O excesso de cuidado prepara para o quê? A superproteção está criando o quê, além de exércitos de pessoas egoístas e despreparadas para as dificuldades da vida?
Sim, o mertiolate não arde mais e nós é que precisamos descobrir um jeito de suportar, assim como nossos pais conseguiram, a dor existencial de assistir nossos filhos crescerem arcando com as consequências de seus atos. Isto, sim, é evolução!


OLHO

“Quando casar passa!”

 

Deixe seu comentário abaixo

Outras edições

Carregando...