ANO: 25 | Nº: 6335

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
01/03/2018 João L. Roschildt (Opinião)

O golpe

Há tempos, os progressistas sabem o valor das narrativas da história. Dificilmente, movem suas peças políticas sem antes pavimentar o curso de suas ações com justificativas exaustivamente repetidas. Seus ideólogos têm consciência que o domínio da história permite a manipulação da vida. A adulteração de uma realidade ou a capciosa ressignificação de um fato pode afetar valores importantes e determinar o destino de gerações. Aos desavisados, saibam que as correntes intelectuais de vossos grilhões obedecem a essa dinâmica nos mais diversos campos de propagação de ideias e informações.

Nos últimos dias, surgiram diversas propostas de disciplinas nas universidades federais com a seguinte temática: o “golpe” de 2016. Todas seguiram o alvoroço que a ideia do professor Luis Felipe Miguel, da UNB, suscitou. Ele ofertou, para o Curso de Graduação em Ciência Política, uma disciplina optativa que foi intitulada de “O golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil”. Outras instituições como Unicamp, UFC, UFAM e UFBA realizaram propostas semelhantes. A ação de replicar a disciplina da UNB em outras instituições é apresentada como um ato de solidariedade às retaliações sofridas por Luis Felipe Miguel por parte do MEC, que pediu uma investigação para averiguar uma possível improbidade administrativa. Mendonça Filho, ministro da Educação, afirmou que a disciplina carece de rigor científico, buscando promover uma corrente política por meio de uma instituição pública de ensino. A ex-presidente Dilma Rousseff contra-atacou, declarando, por meio do Twitter, que o MEC estava afetando a autonomia universitária e a livre circulação de ideias, sendo tal atitude típica de Estados de exceção, em que reina o arbítrio e a censura. O ministro rebateu com um questionamento cruel: “Em nome da autonomia universitária, ela (Dilma Rousseff) defenderia a criação de uma disciplina intitulada ‘O PT, o petrolão e o colapso econômico do Brasil’?”. Creio que essa pergunta não seria respondida de forma positiva por todos aqueles que julgam que o Brasil passou por um “golpe” em 2016...

A repetição desenfreada de uma narrativa tem o poder de alterar a interpretação dos fatos. Para os progressistas, a luta para que o desejo mimético e falso de perpetuação da palavra “golpe” produza resultados efetivos é extremamente árdua, face o não reconhecimento dessa situação por parte das instituições políticas e jurídicas. Portanto, aparelhar o ensino (e o Estado) para formatar as mentalidades vindouras é algo necessário. E não se pode esquecer que é isso que está por detrás dessa mera oferta de disciplina. No entanto, o MEC, ao criar embaraços para tal intento, tende a limitar a livre investigação de ideias, um dos pressupostos para que se desmascarem os intelectuais e suas mentiras.

Mas, é sempre salutar revigorar os clássicos. Creio ser importante compreender a lição do sábio Max Weber quanto à atividade docente. Para ele, “é imperdoável a um professor [...] buscar incutir em seus discípulos as suas próprias concepções políticas, em vez de lhes ser útil, como é o seu dever, através da transmissão de conhecimentos e de experiência científica”. Talvez o ambiente acadêmico brasileiro esteja tão intoxicado de progressismo que o pensamento de Max Weber não passe de uma peça de museu. Eis o verdadeiro golpe.

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