ANO: 25 | Nº: 6312

Fernando Risch

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Escritor
02/03/2018 Fernando Risch (Opinião)

Eu estava esperando esse momento por toda minha vida

Em 2009, meu tio Carlos me apresentou Phil Collins. Na época, eu achava vergonhoso, por um preconceito idiota e inexplicável, gostar de artistas de carreira solo. Não tentem me perguntar por que, eu não sei responder. Mas simplesmente por se tratar de uma pessoa, não uma banda, eu achava aquilo ridículo. Então, eu me apaixonei por ele. Pelo Phil Collins. Tornei-me fã. Mas não um fãzinho. Fã.

Dois anos depois, em 2011, Phil Collins anunciou a aposentadoria aos 60 anos. Não faria mais shows. Iria dedicar a vida a cuidar dos netos. Logo agora, que eu admirava um artista como poucas vezes admirei, ele nunca mais subiria em um palco para cantar. Nesse mesmo ano, bem no início, eu conheci a Carol.

Começamos a namorar em tempo recorde. E parece que nossa vida vai se transformando e evoluindo dessa forma desde então. Carol também não conhecia Phil Collins e começou a escutar comigo, creio que forçada, para tentar não desagradar muito o namorado novo. Hoje em dia, casados, eu assisto The Office no escritório e ela assiste The 70’s Show na sala. Não nos importamos tanto em agradar um ao outro, o que nem de perto é algo bom.

Retomando a linha do tempo, Carol também começou a gostar de Phil Collins e eu comecei a me lamentar de forma pesarosa que nunca o veria ao vivo, que nunca assistiria “In The Air Tonight” e imitaria o solo de bateria, naquele momento exato em que a música explode. Carol brincava, dizia que contrataria Phil Collins quando fosse milionária, para um show exclusivo para mim, tirando-o brevemente da aposentadoria e o colocando de novo após o show. Eu dizia que ele jamais aceitaria isso.

Mas a vida é turva, troncha, e não responde com razão às coisas do mundo. Phil Collins saiu da aposentadoria em 2017. Percebeu que parado estava morrendo, se desintegrando, encolhendo. Escreveu uma biografia “Not Dead Yet” (Ainda não morri), como se respondesse às perguntas que milhões de pessoas deveriam se fazer ao redor do mundo, questionando sua ausência. Para completar, lançou uma turnê com o mesmo nome do livro, mesmo sem tocar nenhum instrumento e cantando sentado, por problemas na coluna.

Quando soube, vi que era a última oportunidade de assistir àquele homem que por quase uma década me assombrou com a ideia de nunca poder vê-lo in loco. Eu iria onde tivesse que ir pelo show. E a vida, bisonha e incompreensível, colocou-o em Porto Alegre, a dois palmos de mim. Era pegar ou largar.

A Carol me levou. Gosto de considerar isso, que ela me carregou nos braços até o – para mim, detestável – Estádio Beira-Rio. E quando ouvimos “Another Day In Paradise” e fizemos uma coreografia pessoal, que inventamos mil anos antes, sabe-se lá por que, ou quando soou “In The Air Tonight” e pude fazer o solo da bateria no momento exato que sempre fiz, eu sabia que era real.

Como a própria música diz: “eu estava esperando esse momento por toda minha vida”. E ele aconteceu. Vai entender.

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