ANO: 25 | Nº: 6232

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
03/03/2018 Marcelo Teixeira (Opinião)

Atrás da bola

Correr atrás da bola é uma expressão que pode significar o ato de trabalhar, batalhar pela subsistência e pode ser substituída por outras tantas expressões com o mesmo significado como, por exemplo: correr atrás da máquina, basquetear, providenciar o pão nosso de cada dia, garantir o leitinho das crianças etc.

Na verdade, essa expressão deriva de uma categoria maior que inicia com “correr atrás” e que sempre indica a necessidade de não ficar parado, de tomar uma atitude, de agir para conquistar aquilo que desejamos ou pretendemos, e que inclui até a controversa “correr atrás do prejuízo”.

A origem dessas expressões populares é incerta, mas “correr atrás da bola” provavelmente tem relação com o futebol e, nesse sentido, descreve também uma situação que se repete muito nas ruas do nosso País e que faz lembrar de um antigo alerta para os motoristas: atrás da bola sempre vem uma criança correndo.

O perigo da situação está relacionado ao fato de que as crianças focam tanto no objetivo de resgatar o seu brinquedo que esquecem do perigo de atravessar a rua sem olhar para os lados. Uma imprudência típica da falta de maturidade e que só não faz mais tragédias graças aos anjinhos da guarda que se desdobram para salvar a criançada dessa perigosíssima combinação entre bola e rua.

Pois bem, esta semana ficou marcada pela longa operação de resgate de um menino que caiu em um córrego na cidade de São Paulo e cujo corpo foi encontrado apenas 48 horas depois, a aproximadamente sessenta quilômetros de onde tinha caído. A causa do acidente foi uma bola que caiu no córrego durante um temporal. Na tentativa de recuperá-la o menino foi arrastado pela correnteza e acabou morrendo.

Às vezes, a gente até tem algumas reações reflexas na tentativa de recuperar alguma coisa que caiu ou escapou de nosso controle, mas a vida nos ensina que, na maioria das vezes, é melhor deixar ir os anéis, mas ficar com os dedos, ou seja, nada vale a nossa vida ou nossa integridade física. Esta noção só o tempo e a experiência nos dão e infelizmente o menino que morreu em São Paulo não teve tempo de vida suficiente para aprender isso.

O episódio mexeu muito comigo porque além da expectativa gerada pela cobertura do resgate, fez lembrar de uma situação que vivi na infância quando quase caí em um riacho fundo por causa de um chinelo de dedo. Só não caí naquela corrente de água graças à resistência de uma taquara em que me segurei e que vergou, mas não quebrou nem se desprendeu da terra. Não tinha ninguém por perto e, se eu tivesse caído na água, provavelmente teria me afogado. Não caí e ainda consegui resgatar o pé do chinelo, mas o susto foi grande. Tanto que lembro até hoje.

Quando falei acima que os anjinhos da guarda se desdobram para salvar as crianças, eu não estava brincando nem usando uma figura de linguagem. Tenho a convicção de que sobreviver à infância e à juventude é um milagre, dados os riscos que corremos e a enorme quantidade de situações de perigo que escapamos ilesos. Não é sorte nem acaso, é a providência divina que nos dá a chance de chegarmos à vida adulta e envelhecermos cheios de histórias como esta para contar. É uma pena que os anjos da guarda não conseguem dar conta de tanto serviço e, assim, nem todos conseguem sobreviver.

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