ANO: 24 | Nº: 6038

Rochele Barbosa

rochelebarbosa@gmail.com
Jornalista formada pela Universidade da Região da Campanha. Responsável pela produção e reportagem do caderno de Saúde do Jornal MINUANO
05/03/2018 Caderno Minuano Saúde

Vícios eletrônicos

Foto: Reprodução JM

Depois de 28 anos, a Organização Mundial de Saúde (OMS) vai atualizar a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID, sigla em inglês). A previsão é que a definição de vários transtornos mentais seja reformulada e inclua novos conceitos, como o transtorno por jogos eletrônicos.

A CID é um sistema que foi criado para listar, sob um mesmo padrão, as principais enfermidades, problemas de saúde pública e transtornos que causam morte ou incapacitação de pessoas, além de orientar a conduta de profissionais de saúde na identificação e tratamento dessas doenças.

A referência para a formação da CID é a Nomenclatura Internacional de Doenças, da OMS. No Brasil, a CID baseia as definições dos principais levantamentos estatísticos elaborados pelo Ministério da Saúde.

Atualmente, está em vigor a CID-10, que foi aprovada em 1990. A versão consolidada da nova classificação, que será chamada CID-11, deve ser avaliada durante a Assembleia Mundial de Saúde, prevista para maio deste ano, em Genebra, na Suíça.

Nesta edição, iremos saber, com o psicólogo Marcelo Motta, um pouco sobre essa doença, o vício por jogos eletrônicos e como tratar .

Saúde mental

A classificação de 1990 está sendo revisada, há alguns anos, por uma série de especialistas de diferentes áreas e países, incluindo o Brasil. As mudanças em debate que têm chamado mais atenção são as relacionadas à saúde mental.

Entre as principais alterações, está a inclusão na lista de transtornos mentais ocasionados por comportamentos obsessivos do chamado gaming disorder ou “transtorno por jogos eletrônicos”.

Segundo a OMS, o uso abusivo de internet, computadores, smartphones e outros aparelhos eletrônicos, além do descontrole no uso de videogames, aumentou drasticamente nas últimas décadas e este aumento veio associado a casos documentados de consequências negativas para a saúde. Mas, o assunto ainda está sendo discutido pelos especialistas que participam do processo de definição das novas diretrizes.

“Existe um debate se a CID-11 deveria incluir uma categoria de Gaming Disorder, algo como Transtorno por Jogos Eletrônicos, como parte de um comportamento de jogo persistente ou recorrente caracterizado por um descontrole sobre o jogo, em prejuízo de outras atividades na medida em que o jogo tem precedência sobre outros interesses e atividades diárias, mesmo quando a continuação de jogos implica a ocorrência de consequências negativas. Se a falta de autocontrole em relação a videogames será legitimada como transtorno específico é tema de debate, uma vez que há dúvidas de como definir o conceito”, explicou o psiquiatra Jair Mari, coordenador dos Estudos de Campo no Brasil para o Desenvolvimento da Classificação dos Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-1.

Segundo Mari, que também é professor titular do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (USP), a 11ª revisão da CID é muito mais ampla e reformula a apresentação de vários transtornos, como o Obsessivo Compulsivo, que deixa a categoria de transtornos neuróticos e passa integrar o conjunto de distúrbios caracterizados por pensamentos e comportamentos repetitivos.

Há também a eliminação dos subtipos da esquizofrenia, além de mudanças na classificação dos transtornos do humor, ansiedade, estresse, alimentares e os relacionados ao uso de substâncias, entre outros.

Conforme o psicólogo Marcelo Motta, o uso de eletrônicos tem aumentado cada vez mais. A preocupação com os adolescentes e crianças é com o uso exagerado de PC, vídeogame, tablets ou celulares, já nos adultos é o como estamos lidando com nosso tempo pelo uso excessivo do celular.

“Os vícios em vídeogame, celulares, entre outros eletrônicos, nos adolescentes, causam muitas preocupações aos pais. São diversões que acabam extrapolando da normalidade. Existem casos de adolescentes que permanecem por mais de 10 horas consecutivas no vídeo game, computador ou tablet causando, assim, um prejuízo não somente físico (sono, perda de apetite, comer muita bobagem, entre outros), pode ser psíquico (insônia, irritabilidade, estresse, ansiedade)”, explica.

Motta destaca que o vício em jogos de videogame passou a ser considerado pela primeira vez um distúrbio mental pela Organização Mundial da Saúde nesse ano de 2018.  A 11ª Classificação Internacional de Doenças (CID) irá incluir a condição sob o nome de "distúrbio de games". O documento descreve o problema como padrão de comportamento frequente ou persistente de vício em games, tão grave que leva "a preferir os jogos a qualquer outro interesse na vida". Alguns países já haviam identificado essa condição como um problema importante para a saúde pública. Muitos desses países, incluindo o Reino Unido, têm clínicas autorizadas a tratar o distúrbio.

“O importante é deixar claro o que pode ser considerado patológico e o que é danoso. É muito comum ver pais dando jogos de celular para controlar as crianças ou colocar as crianças desde pequenas em contato com jogos "para elas pararem".  Existe um limite permitido e aceitado. É muito importante os pais ou responsáveis pelas crianças e adolescentes limitarem desde sempre o uso de eletrônicos, contabilizar algumas poucas horas por dia e não deixar passar disso, na correria dos dias muitos pais acabam não tendo esse controle, mas ele é  importante visto que se não limitado pode acabar vindo a se tornar algo mais sério. Existem muitos casos de jovens que acabam entrando em depressão devido ao viver uma vida paralela à vida real”, complementa o psicólogo.

Com o uso excessivo dos celulares não é diferente. Daí não são só as crianças e adolescentes. Todos nós estamos correndo esse risco, garante o especialista. “Vivemos em uma época onde tudo está ao alcance de nossas mãos, precisamos, muitas vezes, dos eletrônicos para trabalhar, falar com a família, para nos relacionarmos ou apenas nos divertir, por isso é de extrema importância estarmos atentos, se não tivermos o mínimo de controle estaremos vivendo única e exclusivamente para os nossos celulares e tudo que tem dentro dele”, ressalta.

O profissional também enfatiza que o uso excessivo do celular não é considerado uma doença ou mesmo um transtorno psicológico, mas pode gerar incômodo tanto no ambiente de trabalho quanto nos relacionamentos pessoais. “Não é incomum chegarmos em qualquer restaurante, lanchonete, barzinho, ou qualquer outro ambiente público e as pessoas estarem interagindo com os celulares e não com as pessoas na sua volta. Então, o uso excessivo do celular acaba prejudicando nossas relações. É importante que percebamos que nem sempre precisamos estar grudados em celulares”, declara.

Existem até pessoas que defendem a ideia do "detox  digital", acrescenta o psicólogo, uma espécie de limpeza do organismo por passarmos muitas horas em contato com o celular. “Não estou dizendo aqui para não usarmos as redes sociais, o Netflix ou Spotify, entre tantas outras coisas que se encontram nos celulares, porém precisamos analisar se isso não está atrapalhando as nossas vidas. Se conseguimos manter contatos externos sem o auxílio do aparelho digital, tudo é uma questão de equilíbrio. Usar mas ter momentos que eu possa ficar muito bem sem o aparelho”, salienta.  

Motta conclui dizendo que algumas coisas podem ser feitas para diminuir o tempo nos eletrônicos. “Combinar com os amigos, por exemplo, de não mexer tanto no celular quando estiverem juntos, ou sair para dar uma caminhada sem levar o aparelho e dormir com o wi-fi desligado é uma outra tática. Existem aplicativos que contabilizam as horas de uso e que nos limitam de mexer tanto.  Outra tentativa é não usar tanto enquanto estivermos trabalhando. São dicas que todos nós podemos tentar para vivermos melhores com nossos celulares e,  mais importante, com as pessoas a nossa volta”, finaliza.

 

 

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