ANO: 24 | Nº: 6103

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
08/03/2018 João L. Roschildt (Opinião)

Crise existencial

Políticos suscitam êxtases, exasperações e inúmeros instintos. Despertam paixões públicas, que, muitas vezes, suprem as carências das paixões privadas. Criam seguidores e intelectuais desprovidos de intelecto, os quais, em nome da causa, assassinam os valores fundamentais da sociedade. Seus fãs politizam relações familiares, ambiente de trabalho, fantasias de Carnaval, traços culturais e tudo que julgarem ser plástico o suficiente para se encaixar nas estruturas ideológicas.

No dia 21/02/2018, em Belo Horizonte, o ex-presidente Lula proferiu mais algumas de suas frases de efeito, que servem para ilustrar como o fascínio pelo poder dialoga com egos patológicos. Lula, que já se utilizou de exemplos históricos e comparações com figuras emblemáticas, como Nelson Mandela, Juscelino Kubitschek, Getúlio Vargas, Tiradentes e até Jesus Cristo, agora fez um apelo multiplicador. Em seu discurso, no ato de lançamento à pré-candidatura para presidente da República, disse: “Se um Lula incomodava muita gente, dois Lulas incomodam muito mais. E se dois Lulas incomodavam muita gente, pelo menos uns 60 ou 70 milhões de brasileiros vão incomodar muito mais”. Para além da retórica, pergunta-se: quem seria o segundo Lula? Tendo em vista a ausência de qualidade metafórica e o flagrante desprovimento básico para a construção de frases por parte da ex-presidente Dilma Rousseff, seria ela resultado de alguma experiência científica com clonagem intelectual e que não apresentou os resultados desejados? Seria ela o segundo Lula?

A despeito disso, Lula, no mesmo evento, ao se referir aos “inimigos”, disse: “Eles estão lidando com um ser humano diferente. Porque eu não sou eu, eu sou a encarnação de um pedacinho de célula de cada um de vocês”. Juan Arias, em sua coluna para o El País, declarou que, ao se aproximar do dogma cristão da encarnação, Lula estaria enviando uma mensagem simbólica. Assim, “todos os que creem nele e o seguem se tornam deuses como ele”, disse Arias. Talvez exista algo de mais profundo.

João Pereira Coutinho, ao citar os estudos do psicólogo Dacher Keltner e do neurocientista Sukhvinder Obhi, foi taxativo: “O poder pode provocar no cérebro uma espécie de lesão”. Coutinho explica que, para os dois pesquisadores, “o poder tende a inibir a capacidade empática dos poderosos”: ao estarem rodeados de bajuladores e se verem afastados da moralidade comum, anestesiam-se os circuitos inibitórios. Logo, ações consideradas ruins e criminosas pelos cidadãos mortais passam a ser vistas como necessárias e boas pelos “imortais”.

Reparem: se Lula não é Lula, se existem dois Lulas e se ele é um pedaço de célula de cada um de seus seguidores, quem é Lula? Mesmo em uma metáfora, como os pedaços de células se deslocaram para Lula? Ou para os dois Lulas? Ou para o “não Lula” que representa Lula? O ex-presidente seria um exemplo paradigmático da lesão cerebral apontada nos estudos de Keltner e Obhi?

Porém, minha preocupação maior é com a vinda de Lula a Bagé. Com receios de que algumas células desavisadas (as instintivas) possam se encantar com esse líder carismático, estou diariamente explicando para elas como é benéfica a permanência no meu corpo. Todas já me xingaram pela petulância de achar que isso é possível. Em coro, disseram que estou louco. A propósito, qual Lula vem a Bagé?

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