ANO: 25 | Nº: 6460
08/03/2018 Cidade

Empreendedorismo como alternativa para superar desafios do mercado de trabalho

Foto: Tiago Rolim de Moura

Equipe formada por mulheres para atender mulheres: inovação e segurança
Equipe formada por mulheres para atender mulheres: inovação e segurança

No Dia Internacional da Mulher, o Jornal MINUANO traz uma reportagem diferenciada sobre a data. Ao invés de trazer homenagens, a reportagem mostra uma faceta alternativa e atual: o empreendedorismo e os desafios enfrentados pelas mulheres no mercado de trabalho, principalmente em um ambiente dominado, tradicionalmente, por homens.

O lugar delas é desafiando preconceitos
Para Bruna Perez Fernandes, a frase “lugar de mulher é onde ela quiser” é mais que um bordão de luta: é um lema de vida. O lugar a que pertence é sobre duas rodas, cruzando a cidade, desafiando o padrão masculino da área em que atua e o preconceito contra motociclistas mulheres. Junto a ela, mais nove mulheres atuam diariamente, das 8h às 20h, enquanto desbravam o setor de mototáxis como a primeira telemoto formada apenas por mulheres.
Após trabalhar durante alguns anos com o marido, em um ponto de mototaxistas majoritariamente masculino e farta de escutar piadas sexistas e do abuso sofrido com alguns clientes, decidiu levar a cabo uma ideia antiga: criar um serviço de transporte voltado para o público feminino. “Sempre tem aquele machismo disfarçado de brincadeira: ‘devia estar em casa lavando louça’, ou aquele cliente que se aproveita da gente. Já teve situação do cara se passar comigo enquanto eu conduzia a moto. Depois disso nunca mais usei legging para trabalhar lá”, relata.
Assim como se sentia desconfortável, e em certos momentos até hostilizada, percebia que o sentimento também era compartilhado por muitas clientes mulheres, ainda que outras traduzissem o preconceito entranhado através de comentários de desconfiança: “Teve uma senhora que eu desisti de carregar porque toda vez que eu chegava, ela dizia que eu ia derrubar ela, achava que não tinha força para carregar. Nunca derrubei ninguém da minha moto”, afirma.
Foi assim que Bruna conversou com o marido, Tiago, que também atua como motoboy, e resolveu investir em um nicho pouco explorado na cidade: um serviço de transporte feito por mulheres e para mulheres. Assim surgiu a Tele das Gurias, que funciona desde março de 2017, com clientela fixa e cada vez maior. “Eu iniciei sozinha e no outro dia a Dja (Djanira Moreira Vaz) veio trabalhar comigo. A ideia era atender mulheres e gerar emprego para outras mulheres. No início nem estávamos anunciando, mas quando anunciamos, foi uma coisa enorme. Na mesma manhã o post já tinha mais de 500 curtidas e o pessoal começou a ligar”, conta.
Inicialmente, a tele atenderia apenas mulheres e crianças. Mas a procura do público LGBT também foi crescendo. “Acredito que as pessoas se sintam mais confortáveis com nosso atendimento. Clientes gays também começaram a nos procurar porque muitas vezes não se sentiam respeitados ou seguros. Agora, até nós nos sentimos mais seguras para nos arrumarmos. Antes não dava para fazer isso porque os caras logo metiam a mão. Voltei até a usar legging”, brinca Bruna.
Até mesmo a procura de homens pelo serviço das gurias aumentou. “Acredito que as pessoas nos procurem também porque somos cuidadosas no trânsito e pela questão da higiene com os capacetes. Temos todo um cuidado para atender as pessoas e garantir que elas vão nos ligar de novo”, destaca Djanira.
Mesmo com o respeito conquistado entre o público e junto à própria categoria, por enquanto, a equipe ainda não atua à noite. “É muito arriscado trabalhar durante a noite, até mesmo para os homens. Ainda que a gente conheça o passageiro que estamos levando, não sabemos se não vamos ser abordadas na rua, em uma situação de violência”, diz.
"Bagé é uma cidade atrasada, vê a nossa profissão como uma coisa masculina. Até as próprias mulheres são preconceituosas, acham que somos ‘mulher-macho’ para trabalhar assim”, comenta Djanira, que é complementada por Bruna: “Mostramos que mulher também pode ser mototáxi. Para trabalhar aqui não tem que ser mulher-macho. Tem que ser mulher”, finaliza.

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