ANO: 24 | Nº: 6038

Fernando Risch

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Escritor
09/03/2018 Fernando Risch (Opinião)

Sua florzinha não serve para nada

Já mencionei, certa vez, em alguma outra coluna: não importa o que eu diga, minha opinião acerca das mulheres, por mais que vá de encontro com os interesses feministas, é irrelevante. A opinião que realmente importa quando o assunto é mulher, saúde da mulher e dignidade da mulher é da mulher. Qualquer mulher. Mas vou 'pitaquear', como quem não quer nada, sobre alguns comportamentos.

São assustadoras as estatísticas, no Brasil, de violência contra a mulher. Não apenas física e psicológica, mas uma violência velada, maquiada de brincadeira ou de elogio. Um homem que passa 364 dias do ano achando que os problemas sociais envolvendo as mulheres são “vitimismo” ou “mimimi”, não deveria nem sair de casa nos dias 8 de março, muito menos tentar ser um príncipe com agrados fúteis e inúteis.

Sua florzinha não serve pra nada. Entende-se que as pessoas, mulheres e homens, gostam de receber um agrado, mas no cenário geral, no que realmente deve ser levado em consideração no Dia Internacional da Mulher, esse agrado mais parece uma obrigação social boba, uma cortina de fumaça para tapear os descalabros do dia a dia, sem ao menos pararmos para debatê-los e discuti-los. A mulher frente à sociedade ainda tem muito que conquistar. E conquistas básicas.

Um dia como esse faz com que empresas se utilizem do Marketing Social para mostrar engajamento com causas, mas mesmo nestes casos, parece que marketeiros e marketólogos, gerentes e managers, não aprenderam o que realmente está em jogo. O McDonald’s, por exemplo, colocou neste dia 8 de março apenas mulheres para trabalharem em seus estabelecimentos. Ou seja, os homens tiveram folga, enquanto as mulheres trabalham. Isso não é igualdade, porque hoje, sexta-feira, os homens voltaram ao trabalho e tudo segue seu curso normal. Foi apenas um dia, e valeu de quê?

Se o McDonald’s quisesse realmente fazer uma ação social pró-mulheres, algo impactante para mostrar igualdade, ele deveria demitir todos os homens e empregar só mulheres. Não digo que ele de fato deveria fazer isso, mas essa seria a única maneira de realmente perpetuar uma mudança. O que a rede de fast food fez foi apenas tentar receber algum confete, não percebendo que o tiro sairia pela culatra.

Já a prefeitura de Curitiba, por incentivo da coordenadora de Política da Mulher (a luta por igualdade não passa apenas pela conscientização dos homens), colocou cílios postiços nos semáforos da cidade, para mostrar “que o olhar da mulher está em todo lugar”, como se essa ação sem nexo fizesse alguma diferença no cotidiano. E mais, como se cílios postiços fossem algo que apenas ou obrigatoriamente mulheres usassem. Não há conscientização de nada, não há reflexão de nada.

A verdade é que há muito ainda a percorrer e enquanto ficarmos apenas dando flores às mulheres no dia 8 de março e fazendo ações de marketing babacas para gerar um buzz positivo em uma empresa ou administração pública, nada mudará. O que a sociedade brasileira precisa, principalmente os homens, é reflexão e conscientização. Perceber que a desigualdade entre os gêneros é imensa, que há muito pra mudar – e logo - e que não é justo nem digno viver num mundo assim.

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