ANO: 24 | Nº: 6038

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
10/03/2018 Marcelo Teixeira (Opinião)

Buscando a felicidade ou fugindo da infelicidade?

Os crédulos recomendam que a gente evite usar palavras que possam carregar (chamar, trazer, atrair, etc.) alguma energia negativa. Assim, em vez de dizer “que azar!”, a gente deve dizer “que falta de sorte!” ou em vez de dizer “lindo de morrer” deve-se dizer “lindo de viver”. Eficazes ou não, recomendações desta natureza acabam se impondo muito mais por uma questão de hábito do que de fé na energia positiva de algumas palavras, mantras ou signos.
Nesta mesma linha, só que de forma mais natural, muita gente ao justificar ações impensadas ou tresloucadas que alteram radicalmente uma trajetória de vida, costuma dizer que agiu assim porque estava em busca da felicidade. Nunca vi alguém dizer, nessa situação, que estava fugindo da infelicidade, muito embora isso seja um pressuposto, ou seja, quem busca a felicidade está confessando que não é feliz. Por que alguém buscaria a felicidade se é feliz?
Normalmente quem busca a felicidade se joga numa aventura sem destino certo, ou seja, dá uma guinada na vida optando por um caminho repleto de incertezas. Estaria aí a felicidade? Nas incertezas? Salvo melhor juízo, quem busca a felicidade, mais do que desejar incertezas, quer mesmo é se livrar das certezas.
Outra coisa muito comum na busca da felicidade é a conotação sexual da busca. Felicidade estaria, então, vinculada à sexualidade? É óbvio que desejar e ser desejado sexualmente e encontrar satisfação na sua prática sexual são questões importantes para deixar qualquer um feliz, mas isso só reforça a ideia de que a felicidade, assim como o êxtase sexual, é fugaz, transitório e passageiro. Ou seja, felicidade não é algo perene e sim momentâneo.
Por fim, a violência do deslocamento com que os caçadores de felicidade perdida (ou nunca alcançada) partem para sua busca é tanta que, além de afetar severamente o seu destino, acabam afetando o destino dos mais próximos, reforçando a ideia de que se trata de uma atitude egoísta.
Fuga fugaz e egoísta; ação inconsequente com justificativa inconsistente; enfim, não faltam adjetivos para quem está de fora desqualificar a busca da felicidade de outrem, mas pior ainda é perceber que muita gente que joga tudo para o alto em busca da felicidade, faz isso inúmeras vezes ao longo de sua vida, provando que, pelo menos nestes casos, a tendência à infelicidade é congênita. Para comprovar isso, basta observar que quase todos que se dizem felizes, consideram-se felizes desde sempre, confirmando a máxima que diz: “vá o homem aonde for, encontrará somente a porção de beleza que carregar consigo”. 

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