ANO: 25 | Nº: 6311

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
17/03/2018 Marcelo Teixeira (Opinião)

Eternamente insatisfeitos

A insatisfação, para muitos, parece ser algo congênito. Se tem cabelo crespo quer ter cabelo liso e se tem cabelo liso gostaria de ter cabelos ondulados ou encaracolados. Mulheres com seios pequenos querem ter seios grandes e muitas das que tem seios grandes, gostariam de diminuí-los. Os baixinhos gostariam de ser mais altos e os varapaus gostariam de ser mais baixos. Os famosos anseiam por momentos de anonimato que os livrem do assédio incessante dos fãs, já os anônimos fazem das tripas coração por 15 minutos de fama.

É preciso alcançar uma condição financeira satisfatória para perceber que as coisas mais importantes da vida o dinheiro não compra, mas antes disso é difícil não acreditar que o dinheiro é capaz de resolver todos os problemas.

Quando está muito quente, ansiamos por dias mais frescos e quando está muito frio ansiamos por dias mais quentes. Reclamamos do excesso de trabalho, mas lamentamos quando não temos nada para fazer. Desejamos e trabalhamos muito para que nossos filhos cresçam saudáveis, inteligentes e prontos para enfrentar o futuro, mas depois que eles crescem e vão embora, morremos de saudades do tempo em que eles eram pequenos, indefesos e dependentes de nós. Reclamamos dos nossos pais enquanto vivos, mas ficamos com saudades depois que eles falecem. E no caso do casamento, via de regra, quem está fora quer entrar e quem está dentro quer sair.

Dizem alguns entendidos que essa insatisfação recorrente está relacionada à crescente possibilidade de escolha oportunizada pela vida moderna e que seria a materialização da liberdade numa sociedade de consumo, ou seja, liberdade é poder escolher, não só bens, mas tudo mais, inclusive relacionamentos, estilos, gêneros e até pessoas.

É como se as nossas vidas tivessem se transformado numa visita à lancheria famosa onde a cada passo temos que fazer uma escolha. Mas no posto de gasolina também é assim: comum, aditivada ou etanol? Bem cheio ou paro no primeiro clic? Quilômetros de vantagens? Programa de milhas? Já na drogaria: genérico, similar ou de marca? Tem o cartão fidelidade? Desconto de algum convênio? No supermercado, não é diferente: CPF na nota? Contribui para o troco solidário? E, para fechar o negócio, em todos eles: dinheiro ou cartão? Débito ou crédito? À vista ou parcelado?

Esse monte de escolhas não necessariamente cria sensação de liberdade, pelo contrário, pode provocar estresse, indecisão, paralisia e criar a sensação de que nossa escolha pode não ser a melhor, visto que uma escolha, por vezes, pode significar muitas renúncias. Tantas escolhas também nos deixaram mais exigentes e com o aumento de expectativas fica explicado o aumento proporcional das frustrações com nossas escolhas ou com a impossibilidade de faze-las. Tudo isso foi denominado como “paradoxo da escolha” pelo psicólogo estadunidense Barry Schwartz.

Sendo um fenômeno ligado à vida contemporânea, isso poderia explicar que, no passado, quando tínhamos menos escolhas, éramos mais satisfeitos, mas, sinceramente, não creio muito nisso. Pode até ser que esse fenômeno tenha aumentado a sensação de insatisfação, mas, aproveitando o gancho, se você já concluiu alguma vez na vida que era feliz e não sabia, fica provado que para ser feliz basta “saber”. Saber que suas escolhas foram as melhores possíveis, saber que o momento é agora, a hora é já e que sua felicidade não depende de outra pessoa. Aceite-se, conforme-se com suas escolhas, não desista de seus planos, mas não trave a sua vida caso eles se atrasem ou sejam cancelados. Recalcule a rota e seja feliz!

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