ANO: 25 | Nº: 6383

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
22/03/2018 João L. Roschildt (Opinião)

A apropriação da apropriação

Moda. Estilo. Beleza. Tudo está sendo muito afetado pelos patrulheiros da apropriação cultural. Ruidosos e com bom espaço midiático, seus agentes operam na carunchosa dinâmica da suposta relação entre opressores e oprimidos, repetindo incessantemente que determinados grupos estigmatizados estão sendo surrupiados de suas culturas. Dessa forma, para seus defensores, haveria uma perpetuação das relações de poder exploratórias por parte da cultura dominante sobre grupos sociais marginalizados. Os herdeiros de Marx podem até não estar muito na moda, mas seu estilo é inconfundível.

Anitta e Kim Kardashian usaram tranças de origem africana? Patrícia Poeta aprendeu/ensinou como fazer um penteado com turbante em um programa de televisão? Marc Jacobs organizou um desfile de moda com modelos brancas que utilizaram dreads? O estilista Valentino realizou uma apresentação de suas roupas inspirado na África selvagem e tribal com modelos brancas? A Gucci colocou modelos brancos com turbante sikh na coleção outono/inverno 2018? Para os defensores da sagrada gramática politicamente correta do progressismo, os questionamentos apresentariam como resposta o inexpugnável termo “apropriação cultural”. Mas o que isso significa?

A ideia de apropriação cultural, de acordo com a sua cartilha ideológica, obedece à dinâmica de crítica a outras culturas e do capitalismo. Assim, ocorre apropriação cultural quando uma cultura supostamente dominante toma para si traços, elementos ou símbolos de uma cultura supostamente dominada, esvaziando-os de seu significado original por falta de consciência do contexto social-histórico-político, sem contribuir para a melhoria de vida dos explorados. Na melhor tradição marxista, enfatizam que os problemas são estruturais: “A crítica deve ser feita às indústrias que lucram com isso” [...] criticar uma pessoa [...] acho energia gasta com o alvo errado”, destaca a feminista e mestre em filosofia política Djamila Ribeiro, entusiasta da apropriação cultural.

Mas como e quem determina quando alguém está consciente quanto ao uso de algo pertencente à outra cultura? Há algum teste objetivo de consciência ou o indivíduo fica à mercê dos sentimentos do avaliador? E como fixar critérios para verificar uma melhoria na qualidade de vida de alguém? Saliento que de nada adianta dizer que a família do pai de Anitta é negra, que o marido de Kim Kardashian é o rapper Kanye West (negro), que Patrícia Poeta, Marc Jacobs e companhia resolveram prestar homenagens a outras culturas, ou que toda cultura se oxigena com novos elementos. O purismo anticapitalista seguidor da lógica “opressores contra oprimidos” continuará com sua mensagem. Como bem diz o professor de filosofia Paulo Cruz (negro), os defensores da apropriação cultural “reivindicam o controle sobre o que as pessoas podem usar (e dizer) pela cor de sua pele”.

Outro professor, Thomas Sowell (negro), afirma que toda a história da raça humana foi marcada por trocas culturais e avanços de um grupo sobre outros. Criar obstáculos para novos laços culturais interdita o desenvolvimento humano. No limite (e de forma absurda!), resta questionar: se a filosofia é uma invenção grega, estaria Djamila Ribeiro cometendo apropriação cultural ao não ter consciência sobre qual é a essência da filosofia, qual seja, o uso da razão?

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