ANO: 25 | Nº: 6384

Airton Gusmão

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Pároco da Catedral
24/03/2018 Airton Gusmão (Opinião)

Encarnação, Paixão, Morte e Ressurreição

Com a Celebração do Domingo de Ramos, que traz presente a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e com a leitura da Paixão de Jesus Cristo (Mc 15,1-39), onde ele assume a figura do Servo Sofredor (Is 50,4-7), iniciamos a Semana Santa.
Assim como na profecia de Isaías, Jesus assume a missão deste servo, como um discípulo que escuta e cumpre a vontade de Deus, que encoraja os desanimados, não se dobrando à violência, mesmo sofrendo humilhações e torturas; contrariando a maldade do mundo com o bem, a justiça e a mansidão; fazendo assim, o caminho da encarnação, da solidariedade com a humanidade sofrida.
A história da Paixão e Morte de Jesus Cristo não é algo distante ou sem interesse. Toda a humanidade e cada pessoa estão envolvidas nela, dela participam de alguma maneira. Quantas cruzes foram e são levantadas hoje: o pecado que leva a dispensar Deus e à negação do ser humano, ao desprezo e destruição da nossa casa comum; em que populações inteiras são levadas a passar fome para produzirem riquezas e dinheiro; onde povos inteiros são condenados à incultura e à miséria; quando somos levados à prática da violência, injustiças, mentiras, ao deboche, desprezo e negligência do ser humano.
Na verdade, cada um de nós poderá exercer o papel de Pedro, que nega o Mestre, mas se deixa atingir pelo olhar misericordioso de Cristo. Pode acontecer que façamos o papel de Pedro, Tiago e João: em vez de vigiar, adormecem enquanto Jesus sofre a agonia de sua hora. Seremos talvez, em certas circunstâncias da vida, as testemunhas falsas, os sumos sacerdotes, os anciãos e os escribas, que não reconhecem em Jesus o Filho de Deus bendito, nem o Filho do Homem que verão sentados à direita do Pai.
Quem sabe, ainda, poderá se manifestar em nós a figura de Pilatos, que cedeu à “preferência popular”, presente hoje nos governos, grupos e muitos meios de comunicação que produzem “aquilo que o povo gosta”, mantendo assim multidões na cegueira da ignorância e exclusão e, por covardia, acabamos por condenar o Filho de Deus. Seremos ainda o povo, preferindo Barrabás a Cristo, em que damos destaque às músicas, novelas, programas de entretenimento, livros e filmes de maior sucesso que atacam as pessoas e instituições que defendem os valores da família, da dignidade humana e da justiça.
Cada pessoa já terá sentido em si o conflito entre o personagem que faz o Cristo sofrer mais e aquele que se solidariza com ele e procura aliviar seus sofrimentos. A celebração da Semana Santa será sempre um confronto com o mal do mundo, com o “mistério da iniquidade” (2Ts 2,7), tão presente na humanidade.
Nós proclamamos ao mundo inteiro que os sofrimentos e a morte estão por fim condenados a produzirem vida. A cruz de Cristo nos diz que o amor supera o ódio; exatamente o que Cristo faz, ao dar sua vida aos que dele querem tirá-la. Importa que reconheçamos no Filho do Homem quem ele é, e digamos como o oficial romano, um pagão: “Na verdade, este homem era Filho de Deus” (Mc 15,39).
Permitamos que a esperança, que brota da ressurreição do Crucificado, seja renovada, confirmada, testemunhada: “A sua ressurreição não é algo do passado; contém uma força de vida que penetrou o mundo. Onde parecia que tudo morreu, voltam a aparecer, por todos os lados, os rebentos da ressurreição. É uma força sem igual. Em um campo arrasado, volta a aparecer a vida, tenaz e invencível (Evangelho da Alegria, nº 276).
Façamos acontecer a Semana Santa. Sejamos alegres na esperança, fortes na tribulação, perseverantes na oração e solidários com os que sofrem. Um bom final de semana a todos e até uma próxima oportunidade.

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