ANO: 25 | Nº: 6403

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
29/03/2018 João L. Roschildt (Opinião)

Contradições ambulantes

Todos deveriam se preocupar quando alguém é categorizado de filósofo. A razão disso seria um apreço pelo verdadeiro significado da palavra. Pelas lentes do senso comum, tal configuração é ofertada a um indivíduo que demonstra um saber acima da média, possuindo a capacidade de se pronunciar sobre os mais variados temas com a autoridade de quem conhece o assunto. Gramsci, um neomarxista muito venerado pelos progressistas, disse que “todos os homens são ‘filósofos’”. Mas, então, não haveria grande diferenciação entre Aristóteles, MC Kevinho e Dilma Rousseff?

Márcia Tiburi é uma dessas figuras públicas que é adorada como filósofa. Essa feminista é autora de um livro com título curioso: “Como conversar com um fascista: reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro”. Conforme a autora, no “Agradecimento” da obra, a proposta é exercitar a coragem do diálogo para fortalecimento da sociedade democrática. Para o juiz Rubens Casara, que escreveu a “Apresentação” do livro, “o desafio é confrontar o fascista com aquilo que para ele é insuportável: o outro. O instrumento? O diálogo, na melhor tradição filosófica atribuída a Sócrates”, acrescentando que “confrontar o fascista, desvelar sua ignorância, fornecer informação/conhecimento, levar esse interlocutor à contradição, desconstruindo suas certezas, forçando-o a admitir que seu conhecimento é limitado fazem parte do empreendimento ético-político da autora [...]”. Já Jean Wyllys, que penejou o “Prefácio”, ao classificar o Movimento Brasil Livre (MBL) de fascistoide e de exemplo de analfabetismo político, reforçou que é necessário lhes ofertar uma educação de qualidade para que saiam dessa condição nefasta, asseverando: “É preciso insistir no diálogo com o fascista”. Registre-se que tanto Rubens Casara quanto Jean Wyllys idolatram Che Guevara: o primeiro já foi fotografado com um quadro ilustrativo da famosa foto de Korda em seu gabinete, ao passo que o segundo já se vestiu como Che (líder revolucionário argentino que não era muito afeto a diálogos com seus inimigos políticos ou gays).

No dia 24/01/2018, Márcia Tiburi participou do programa de Juremir Machado na Rádio Guaíba. Em determinado momento, eis que adentra no recinto o ativista do MBL Kim Kataguiri. A filósofa, ao se deparar com o jovem, dispara como uma criança mimada: “Credo! Eu não vou sentar com esse cara, Juremir! [...] Tô fora, meu! Tá loco! Vou embora! [...] Nossa, vou chamar um psiquiatra! [...] Que as deusas me livrem disso! Tenho vergonha de tá aqui! [...] eu não falo com pessoas assim, que são indecentes, que são perigosas, tenho até medo de tá aqui, to indo embora!”. E assim se retirou a filósofa.

Ora, mas Márcia Tiburi não veria ali a oportunidade para destroçar os argumentos “fascistas” de um dos líderes do MBL? Não seria uma chance ímpar de demonstrar a fraqueza intelectual de Kim? Alguém que ostente o título de filósofa fugiria acuada de um debate de ideias, descumprindo o que seu livro preceitua? Ou o medo infantil declarado para encarar um debate é um sinal da falta de solidez intelectual? No Twitter, no longínquo ano de 2013, Márcia Tiburi escreveu: “Por que há pouco diálogo no mundo? Por o mundo está (sic) lotado de canalhas. E eles não conversam com não canalhas”. Seria a contradição uma condição para chamar alguém filósofo?

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