ANO: 25 | Nº: 6358

Fernando Risch

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Escritor
30/03/2018 Fernando Risch (Opinião)

Qual o real valor de um líder?

Na participação de Barack Obama no novo programa de David Letterman, no Netflix, “O Próximo Convidado Dispensa Apresentações”, o ex-presidente americano deu uma declaração interessante quando falou sobre o que significa ser um presidente.

Em sua concepção, falando na realidade americana, as ações práticas do político eleito no gabinete, pendendo para um lado ou para o outro, visto se Democrata ou Republicano, são o que menos impactarão a vida da população. Para ele, o real impacto do líder no povo vem de sua personalidade, o que ele transmite. É algo impalpável que dá esperança e força e impulsiona o povo à frente.

Em 2009, ao assumir o poder, o mundo viu um negro ocupando o posto da pessoa mais poderosa do planeta (ou do mundo livre, como alguns preferem dizer). O impacto que isso gerou na comunidade negra, não apenas americana, mas mundial, é imensurável. Assim como, um racista em potencial, um odioso por natureza, se reserva ao armário do próprio preconceito, porque vê uma massa inteira remando na mesma direção, que não é a dele.

Atualmente, o que ocorre é exatamente o oposto. A imagem de Trump, sua personalidade e atos pessoais, dão o respaldo que o preconceituoso e odioso precisava para sair do seu armário, com alguns até marchando à luz do dia, abraçados com a Ku Klux Klan, sem medo e sem vergonha. A KKK, uma entidade racista que todos imaginavam estar morta, voltava da tumba. Consequentemente, parte do outro lado da moeda se esconde, seja por medo ou falta de esperança.

No Brasil, acontece o mesmo. A personalidade belicosa e autoritária de Jair Bolsonaro, com declarações que extrapolam o limite da polêmica, descambando para ações cíveis (como na condenação do parlamentar no STF por ofensas a Maria do Rosário, ao dizer que “não a estupraria porque ela não merece”), deu esse respaldo a muita gente. Ninguém se importa mais se está ofendendo o outro, se está diminuindo alguém ou se está incentivando, mesmo que inconscientemente, a ações lamentáveis e a crimes. É tudo parte da "mitagem" que envolve a persona do político, sendo avivada em pessoas de todo país, sempre, por óbvio, embalado no papel da “brincadeira”. E aqueles que não gostam precisam "se acostumar" e parar de “mimimi”. Respaldo.

Ainda na linha da representatividade, quando Ana Amélia Lemos, como senadora da República e representante de milhares de pessoas, incentiva atos violentos – dentro de protestos democráticos - contra a caravana de Lula, ela dá respaldo pra que um desvairado dispare uma arma inconsequentemente, sem se importar se matará alguém ou não. E isso não é apologia a Lula (que abandonou o modo Lulinha Paz & Amor há algum tempo). Nenhum político, de Trump a Bolsonaro, de Jean Wyllys a Maria do Rosário, merece ser alvejado por um louco no local que seja. Atirar contra um adversário político é fascismo bruto, não importando quem apertou o gatilho ou quem é o alvo. Não é democracia.

Esse é
 só um exemplo de como a personalidade de um líder reflete na população e afeta a vida do povo diretamente. Uma frase mal colocada, um passar de pano para atos lamentáveis e nossa realidade muda; uns saem do armário para ofender, outros se escondem, ofendidos. Ser um líder exige seriedade, não galhofa jogadas ao vento para atingir um possível eleitorado indignado. Nós precisamos acabar com esse ódio - dos dois lados – e começar a debater com seriedade.

O belicismo da corrida eleitoral está descambando para uma guerra civil.

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